Digitalização e Confiança

O deslumbramento com as oportunidades que a revolução digital proporciona tem levado a uma subestimação dos riscos que esta coloca e que poderão condicionar o seu desenvolvimento.

Poucos hesitarão em reconhecer os amplos benefícios que a revolução digital que está a marcar o nosso tempo tem originado. A transferência de muitos dos nossos hábitos para o online não deixa dúvidas quanto às vantagens que identificamos na utilização das plataformas digitais. Todavia, como sucede com muito do que é novo, a evolução tem-se feito sem um plano estruturado, e muito mais por navegação à vista. O deslumbramento com as oportunidades que a revolução digital proporciona tem levado a uma subestimação dos riscos que esta também coloca e que, no limite, podem afetar o seu próprio desenvolvimento.

Como o futuro não deixará de demonstrar, a economia digital apresenta um traço fundamental em comum com o negócio bancário: a confiança. Sem esta, dificilmente o ecossistema digital prosperará como neste momento parece destinado a suceder. E tudo indica que a sua falta pode ser sistémica.

Primeiro, a confiança de que o comércio eletrónico é seguro é um pilar estruturante da economia digital. Transacionar online tem que ser tão ou mais seguro do que no mundo ‘offline’. O amplo crescimento do comércio eletrónico nos últimos 20 anos foi acompanhado por um igualmente vertiginoso proliferar das fraudes online, que incluem roubos de identidades, de palavras-chave, de sites falsos ou enganosos e de técnicas de phishing. A solidificação de um sistema de comércio eletrónico cada vez mais seguro e o desenvolvimento de ferramentas antifraude nunca pode deixar de ser prioritário.

Segundo, a confiança nas plataformas que nos recomendam todo o tipo de conteúdos, produtos e serviços é cada vez mais importante. O volume de informação com que nos deparamos diariamente torna a nossa atenção num recurso escasso. Há não muito tempo, se queríamos ler um livro estávamos limitados à livraria ou à biblioteca do bairro. Notícias, ao jornal diário ou semanário disponível na tabacaria. Agora, o mundo digital dá-nos acesso a um catálogo praticamente ilimitado de edições de livros e somos permanentemente inundados por notícias das mais variadas fontes, ao ponto de já nem estarmos dispostos a pagar para as ler.

A dificuldade é a escolha. É a chamada “economia da atenção”, em que os economistas procuram conceber a melhor forma de reter a nossa atenção no limitado tempo de que dispomos. As recomendações que as plataformas nos fazem desempenham aqui um papel fundamental. São estas (ou os seus algoritmos) que supostamente nos conhecem (ou, pelo menos, os nossos hábitos online) e dominam também os produtos ou serviços que ponderamos consumir online que nos ajudam a tomar decisões.

A falta de fidedignidade das recomendações que nos são apresentadas pode ter consequências sérias para a confiança no sistema. Recentemente, debrucei-me aqui sobre os riscos específicos para a cidadania e para a democracia que um sistema não fidedigno na área da seleção da informação e das notícias coloca. Noutras áreas os riscos que existem são outros.

Por fim, a confiança de que a informação pessoal que deixamos online é confidencial e tratada unicamente para as finalidades para as quais a fornecemos deve igualmente ser um princípio estruturante da economia digital. É hoje em dia patente que deixamos muitos dados pessoais no nosso percurso pela Net, tanto consciente como inconscientemente. É sabido que os nossos hábitos online, desde os sites que visitamos, às compras que realizamos, às publicações que colocamos nas redes sociais e até às conversas privadas que temos nos serviços de mensagens são analisadas por algoritmos e depois utilizados para fins publicitários.

No caso concreto do Facebook, têm até surgido acusações de que esta aplicação acede ao microfone do smartphone para ouvir conversas privadas dos utilizadores e enviar-lhes publicidade direcionada. Parece claro que a tecnologia hoje disponível tem o potencial de devassar por completo a nossa vida. E, à medida, que migramos um maior número de hábitos para o mundo online, maior será o risco de a sociedade em que vivemos se transformar num Big Brother, à imagem da figura homónima criada por George Orwell em “1984”.

Termino como comecei. O universo digital traz inúmeras oportunidades. Mas, sem confiança, o caminho será infinitamente mais tortuoso. Por isso, é importante que comerciantes e consumidores, mas também legisladores e reguladores, trabalhem em conjunto para a construção deste mundo.

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