Dignidade

Segundo parece, para uma parte significativa dos nossos jornalistas e comentadores, o Presidente da “democracia” ianque pode mandar assassinar o seu vizinho. É uma “normalidade” das relações internacionais.

Na morte de Fidel.

Há os que nunca perceberão o que é a dignidade de um povo, de uma pátria. Não porque sejam ínvios os caminhos da dignidade, mas porque há muitas lesmas, muitos invertebrados. A morte de Fidel trouxe alguns às páginas dos jornais, às televisões, às rádios… Os que julgam que quem paga, manda. E que, mesmo os que agridem e roubam, têm esse direito, desde que sejam mais poderosos! E que os impérios têm sempre esse direito. Cegos pelo sol da dignidade com que a revolução cubana, dirigida pelo Comandante Fidel Castro, iluminou a América Latina. Não lhe perdoam.

Os que bolsam vitupérios contra Fidel, em nome da democracia e, miseravelmente, esquecem a carnificina de Pinochet e todo o terrorismo que a antecedeu, inspirada, desenhada e armada pelo imperialismo ianque, que assassinou um Presidente eleito pelo povo chileno. E os “Contra” na Nicarágua. E o golpe de mão no Panamá, “raptando” do país um Presidente eleito. E os crimes sórdidos na Guatemala. E o terrorismo de Estado das ditaduras do Chile, Argentina e Brasil, coordenado e dirigido pela CIA. E a infindável listagem de intervenções militares e morticínios, sempre organizados em nome da liberdade e da democracia.

Os que, hipócritas, choram pelos cubanos – certamente porque a Revolução lhes assegurou a saúde e a educação que nenhum outro país vizinho, incluindo os EUA, assegurou ao seu povo –, não lhes causa qualquer sobressalto ou irritação que sucessivas decisões das Nações Unidas, por voto de quase todos os Estados do planeta contra o iníquo Bloqueio e leis extraterritoriais, sejam respeitadas pelo seu perigoso vizinho do Norte. Não te perdoam Fidel, teres resistido vitorioso com Cuba. Teres erguido bem alto o grito dos humilhados e ofendidos dessa América que julgavam, e julgam, coutada sua. Tão alto foi o grito que tu, morto, é ainda a tua voz que querem calar!

É assim que um jornal, como o Público de domingo, pôde gastar 13 páginas com “história”, comentários e um escabroso Editorial sobre a tua morte. Não se encontram três linhas a referir as tentativas de assassinato perpetradas pela CIA. Isto é, decididas por Presidentes dos Estados Unidos da América. Segundo parece, para uma parte significativa dos nossos jornalistas e comentadores, o Presidente da “democracia” ianque pode mandar assassinar o seu vizinho. É uma “normalidade” das relações internacionais. E, por isso, não precisa de constar da tua biografia.

Repete-se: os EUA tentaram assassinar, através dos seus serviços de segurança, o mais alto responsável de um Estado vizinho. Como assassinaram Che Guevara. Percebem? Tentaram matar Fidel, uma, duas, centenas de vezes. (Mas será que as lesmas saberão algum dia o que é a dignidade de um povo que não se deixa ajoelhar?) Tu morreste. O teu sonho não morrerá. Porque os trabalhadores e os povos não desistirão da luta pela dignidade. Não desistirão da luta pela soberania e independência. Da luta pelo fim da opressão e da exploração.  A dignidade com que o povo cubano evoca Fidel na sua morte é sinal forte, e comovente, de que o seu sonho cresceu e resiste!

Hasta la victoria siempre, Fidel.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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