A direita, carrasco da banca

Passos Coelho grita agora que Costa deve uma explicação aos portugueses. Não deve. Quem a deve é a oposição irresponsável, demagógica como nos habituou sempre que se tratou do sistema financeiro.

A coligação de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas fica para a história de Portugal como o carrasco do setor financeiro. Curioso que estejamos a falar dos partidos da direita que tinham a obrigação de perceber melhor as sensibilidades de um setor vulnerável pelo seu endividamento excessivo, gestões duvidosas e demasiado politizadas. O mesmo ex-primeiro-ministro que “se estava a borrifar” para as eleições, e que faria sempre e só o melhor para o país, assinou a sentença de morte de dois bancos, o BES e o Banif, e condenou o banco público, por negligência e omissão, a uma vida moribunda.

A gestão do caso Caixa foi desastrosa. Centeno e Costa prometeram a António Domingues o que não podiam, sobretudo pelas leis da política. Travaram uma dura batalha – que ninguém acreditava que ganhassem – com o BCE. Tudo o resto surpreende pela negativa. Das promessas impossíveis a António Domingues ao seu envolvimento, quando ainda era quadro do BPI, no mais ambicioso plano de reestruturação da história do banco público. Todos falharam, acreditando que, no final, tudo seria ruído político inconsequente.

Não foi. Sobretudo o PSD, ferrou o dente – e com um Bloco que se lembrou que era de esquerda –, conseguiu entregar a CGD ao vexame e à extensão do período de cuidados paliativos em que se encontra há anos. O PSD devia ter vergonha. A administração anterior estava demissionária desde junho de 2015, seis meses antes das eleições. Que fez a coligação em representação do acionista Estado para assegurar uma transição? Nada. Questionou a competência de Domingues e a primeira gestão profissional apolítica do banco público? Não. Só as questões de forma que, sendo importantes, deviam ser enquadradas num contexto mais importante: o do interesse nacional. Aquele que a coligação sempre disse defender.

Passos Coelho grita agora que António Costa deve uma explicação aos portugueses. Não deve. Quem a deve é a oposição irresponsável, do cacique político-partidário, demagógica como nos habituou sempre que se tratou do sistema financeiro. Cega e impreparada quando se trata da banca, lidando com o setor como se de uma mercearia se tratasse, numa lógica míope de pura sobrevivência dos mais fortes.

Vem Maria Luís Albuquerque regozijar-se com o discurso do Governador, que diz que os problemas do setor financeiro vêm do tempo de Constâncio. Mas alguém ainda acredita na isenção de um Governador que foi incapaz de gerir o caso BES, Banif e agora a Caixa? Um Governador que foi reconduzido pela coligação num derradeiro ato de gestão, em jeito de recompensa por ter apoiado aquilo que nos meandros do PSD se chamava, de forma revanchista, de “dessalinização da economia”, referindo-se à necessidade de acabar com o poder de Ricardo Salgado?

Costa e Centeno cometeram erros de palmatória. O primeiro-ministro achou que tinha em Domingues um Centeno “número 2” que tudo aguentava, indiferente a princípios, a críticas e à política. Mas António Domingues não é um homem de mão de Costa. E essa era a boa notícia para a Caixa.

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