Dirigente da CPLP quer parceria com União Europeia e Banco Africano de Desenvolvimento

Os jovens e a empregabilidade será uma das áreas a que o secretário geral executivo da CPLP também vai prestar atenção.

Jason Reed/Reuters

O secretário executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), quer estabelecer parcerias mutuamente vantajosas com a União Europeia (UE) e o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), para aposta em novos modelos de cooperação.

Numa entrevista à Lusa, por telefone, a partir de Roma, onde esteve até esta semana como embaixador, tomando posse hoje como secretário executivo da CPLP, Francisco Ribeiro Telles disse que esta será uma das prioridades do seu mandato.

“A população da CPLP é muito jovem – metade da população tem menos de 25 anos – e é preciso pensarmos nos jovens e na sua empregabilidade”, afirmou.

Nesse sentido, afirmou: “a minha ideia era estabelecer parcerias com organizações mais regionais que possam ser úteis à CPLP. E falo nomeadamente da União Europeia e do BAD – Banco Africano de Desenvolvimento e levar a CPLP a concorrer a projetos internacionais para os quais a União Europeia e o BAD dão contribuições financeiras”.

Porém, para que isso aconteça é preciso que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) se qualifique.

“Era importante que a CPLP se certificasse internacionalmente para poder aceder a esses projetos. Uma matéria que agora irei estudar com os meus serviços, porque é um processo complexo e moroso”, reconheceu o diplomata.

“Mas queria dar o pontapé de saída para isso”, frisou.

Ainda no sentido de potenciar o ativo económico da CPLP, Francisco Ribeiro Telles diz que “há outra matéria” em que pretende dar alguns avanços, a do papel dos 19 observadores associados da organização.

A CPLP quando foi constituída em 1996 foi sobretudo com base naquilo que ainda hoje é “a matriz identitária da CPLP”, a língua portuguesa.

Mas hoje a organização, bem como os seus estados membros, têm uma escala que ultrapassa a realidade de 1996. Este facto, diz Ribeiro Telles, “introduz uma dimensão económica que não foi prevista nem sonhada, aquando da sua constituição, e, portanto, há uma dimensão económica e empresarial que deve continuar a ser consolidada, através de uma ligação com a confederação empresarial da CPLP, e uma dimensão económica que tem de ser potenciada”, defendeu o embaixador.

Além disso, “em termos geoestratégicos, a CPLP também assumiu outra relevância”.

“Se pensarmos que 50% dos recursos petrolíferos descobertos na última década estão em países da CPLP e que, em meados deste século, o gás e o petróleo de Angola, do Brasil, da Guiné-Bissau, de Moçambique e São Tomé e Príncipe vão representar 30% da produção mundial de hidrocarbonetos, isso são dados significativos, sublinhou o novo responsável da organização.

Em Portugal, relembra Francisco Ribeiro Telles, o funcionamento do porto de Sines como plataforma de entrada do gás na Europa, que não quer ser tão dependente da Rússia, “é um dado também importante para a própria CPLP”.

“Por isso, a minha ideia é eventualmente prepararmos um encontro para estudarmos bem de que forma é que se pode traduzir esta dimensão económica da CPLP e vermos que passos dar em conjunto para potenciar todo o ativo económico que ela representa hoje”.

A comunidade Internacional tem vindo, por tudo isto, “a demonstrar um interesse crescente pela CPLP”. Hoje a organização conta com 19 observadores associados, “mais do dobro dos estados membros efetivos, e é evidente que nós é que temos de valorizar a importância desses observadores associados e ver até que ponto a CPLP lhes pode ser útil e eles podem ser úteis à CPLP”.

Três dos países observadores associados são da América Latina, Argentina, Chile e Uruguai, vários são da Europa, dos quais sete são estados membros da União Europeia, um é da Ásia, o Japão, e dois de África, a Namíbia e o Senegal, relata Francisco Ribeiro Telles.

“Isto demonstra o interesse crescente pela CPLP”, conclui, mostrando-se otimista: “Temos que organizar reuniões, aliás à semelhança do que tem vindo a fazer a atual secretária executiva, no sentido de sabermos até que ponto eles podem ser úteis à CPLP e esta lhes ser útil, no sentido de podermos ter iniciativas e projetos conjuntos que tenham uma dimensão política, cultural, linguística, mas sobretudo até que ponto podemos trabalhar em conjunto”.

“Eu acho que é importante estarmos cada vez mais perto desses países observadores”, frisou Francisco Ribeiro Telles, admitindo que o número atual possa aumentar nos próximos anos.

Da China, assegura, no entanto, que não teve até agora qualquer manifestação de interesse no sentido de se tornar país associado da CPLP.

“Temos o Fórum Macau, que funciona com os países africanos de língua portuguesa e a China tem algum interesse nisso, mas não tenho nenhuma indicação que queira vir a ser país associado”, acrescentou.

O diplomata, que toma hoje posse como secretário executivo da CPLP, reconhece ter “um percurso singular” que lhe permite conhecer o mundo lusófono.

“Passei 16 anos da minha vida diplomática como embaixador em Cabo Verde, Angola e Brasil. É uma experiência que não trocaria por mais nenhuma outra na vida, do ponto de vista humano e profissional”, recordou.

“Agora vou ter este privilégio de servir uma comunidade que eu acho ser única e plural e que tem um futuro à sua frente”, afirmou, na entrevista à Lusa.

No entanto, “é evidente que o futuro que a CPLP terá à sua frente dependerá daquilo que nós quisermos que ela seja”.

De si, garante “dar o melhor” de si próprio em prol de uma organização em que acredita.

“E obviamente que é muito gratificante acabar a minha carreira aqui”, afirmou.

“Vão ser dois anos muito intensos e, dois anos é muito pouco”, concluiu.

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