Disrupção

No mundo financeiro, começa a ser visível que o intermediário puro será desnecessário, uma vez que as transações de instrumentos financeiros poderão ser feitas diretamente entre as pessoas.

A recente escalada nos preços das moedas digitais, como o Litecoin ou Bitcoin, e o interesse pela tecnologia blockchain, têm associadas alterações profundas na forma como a sociedade interage e decide.

A bolha deste mercado, por representar uma capitalização de 500 mil milhões de dólares americanos, ainda não é suficientemente relevante para uma intervenção dos governos.  Apesar do risco crescente, continua a ser uma gota de água quando comparado com os biliões perdidos nas bolhas tecnológica ou do imobiliário.

As preferências da geração millennial estão a revelar-se decisivas para a mudança da sociedade. A noção de decisão por consenso por parte de uma comunidade, com validações entre si, está por detrás do que se espera vir a ser uma evolução da internet e da forma como a tecnologia nos serve. Este é um dos princípios por detrás do blockchain que trará novos desafios ao nível dos transportes, mobilidade e velocidade de comunicações, bem como ao nível da facilitação e validação de transacções. No fundo, estamos perante uma segunda vaga de democratização que se iniciou com a propagação da internet no fim da década  de 90.

A tão chamada IoT – “Internet of Things”, ou Internet das Coisas, irá alterar a forma como olhamos para o mundo e como interagimos com os elementos que nos rodeiam. Nesse sentido, podemos idealizar uma comunidade que, ao validar ou ao supervisionar procedimentos, interligações ou transacções, conseguisse reduzir a corrupção; ou que a participação em futuras eleições pudesse aproximar-se dos 100%; ou ainda que a mobilidade autónoma seja uma realidade, com os veículos a comunicarem entre si.

Estes exemplos não são de todo ficção, mas os limites impostos pelo próprio ser humano e pelas infra-estruturas instaladas impedem uma evolução mais rápida. Podemos ter internet à velocidade da luz, mas continuamos a ser humanos e com limites, os quais já estão a ser testados todos os dias com mais informação do que alguma vez tivemos disponível.

Ora, estas alterações colocam desafios profundos. No mundo financeiro, começa a ser visível que o intermediário puro será desnecessário, uma vez que as transacções de instrumentos financeiros, como acções, poderão ser feitas directamente entre as pessoas. Será necessário que muitas empresas comecem a pensar qual o seu futuro neste novo mundo, evitando o que aconteceu com a revolução tecnológica do inicio do milénio – ficarem obsoletas. Por exemplo como dar valor acrescentado a um investidor, que, hoje em dia, pode pedir conselhos a um robot ou algoritmo?

O exercício de pensar sobre o futuro é difícil, mas imprescindível para quem quiser permanecer no mercado e sobreviver às mudanças estruturais. Certo é que a assimetria de conhecimento está a aumentar ainda mais depressa do que a assimetria de rendimentos, o que se traduzirá certamente numa forte disrupção da sociedade.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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