Dívida pública continua a ser investimento com pouco risco

Particulares podem investir em dívida pública através de certificados de aforro, obrigações do tesouro ou certificados do tesouro.

O investimento em dívida pública foi durante anos considerado mais seguro que o investimento em ações, devido ao menor risco de crédito associado, ou seja, ter maior probabilidade dos títulos serem reembolsados. No entanto,  o tempo e, em período de taxas de juro historicamento baixas, a margem de retorno tem retraído alguns investidores particulares.

Filipe Silva, diretor da gestão de ativos do Banco Carregosa refere ao Jornal Económico que o investimento em dívida pública, tomando como referência as Obrigações do Tesouro portuguesas a 10 anos  “não tem comparação, nem na rentabilidade, nem no risco, nem no prazo” com o investimento tradicional em ações ou no mercado imobiliário.

“Se um particular investir em dívida pública a 10 anos, neste momento, tem uma rentabilidade bruta de 1,8% ao ano, a que terá que retirar 28% de imposto retido na fonte, sobrando uma taxa de 1,29%”, explica. No entanto, salienta a dimensão temporal na tomada de decisão, já que apenas terá retorno de capital ao fim de dez anos, ficando refém da variação de preço no mercado secundário, no caso de pretender reaver o investimento antecipadamente.

A CEO da gestora Casa de Investimentos, Emília Vieira, considera que “investir em dívida hoje é um péssimo investimento, é destruir poupança”.

A gestora explica que as yields das obrigações sem risco ou de baixo risco em euros estão negativas até às maturidades de 6 ou 7 anos, o que se traduz na obtenção de rendimento positivo “emprestando a emitentes mais fracos, com elevado risco de crédito ou emprestando por prazos mais longos, aumentando o risco de taxa juro porque a estamos a fixar para um período longo arriscando uma perda enorme face à inflação”.

Opções de investimento em dívida pública

Os particulares podem investir em dívida pública através de três opções: certificados de aforro (CA), obrigações do tesouro (OT) ou bilhetes do tesouro (BT) ou certificados do tesouro (CT). Os certificados de aforro têm o objetivo de captar a poupança das famílias, sendo colocados diretamente juntos de pessoas singulares com capitalização de juros e transmissíveis, exclusivamente em caso de falecimento do titular.  Já os BT são um valor mobiliário representativo de um empréstimo de curto prazo, com valor unitário de um euro, com prazos para a maturidade até um ano, colocados a desconto através de leilão ou subscrição limitada e reembolsáveis no vencimento pelo seu valor nominal, enquanto o BT é um valor mobiliário representativo de um empréstimo de curto prazo, sob as restantes mesmas condições do OT. Existem ainda os Certificados do Tesouro Poupança Crescimento (CTPC), já que os anteriores certificados do tesouro se encontram suspensos.

A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública – IGCP explica que as subscrições dos primeiros são facilmente subscritos em qualquer estação dos Correios. Já a emissão OT e BT, são realizadas no segmento de retalho do mercado de capitais e a sua aquisição direta ou indireta por via de fundos de investimento pode ser efetuada através de instituições financeiras especializadas. Ainda que nos últimos anos tenha diminuido, os portugueses continuam a também a procurar as ofertas de Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV), cujo rendimento varia em função da taxa Euribor. Apesar do retorno ter diminuído, com a Euribor negativa, é procurada sobretudo por investidores que procuram uma alternativa segura.

 

Dívida pública vs dívida privada

Filipe Silva assinala que uma das maiores dificuldades no investimento em dívida privada é o montante mínimo exigido, apesar de poder ter uma rentabilidade mais elavada do que a dívida pública.

“O montante mínimo para investir é de 50 mil ou 100 mil euros. Para ter uma carteira diversificada, de forma a mitigar o risco e não “colocar os ovos todos no mesmo cesto”, precisaria de ter um investimento inicial de 2 milhões de euros”, acrescenta. No entanto, destaca exceções, como casos de  ofertas públicas de obrigações dirigidas a particulares (retalho), nas quais o mínimo pode ser de mil euros.

Por outro lado, Emília Vieira defende que  investir numa fatia de ações é “a melhor forma de rentabilizar a poupança a médio e longo prazo”.

“Não faz sentido pagar ao governo alemão ou português para usarem o nosso dinheiro durante dois ou três anos e não nos pagarem nada por isso. Não faz sentido emprestar a zero a uma excelente empresa para os acionistas beneficiarem com os lucros do investimento. Isso é destruir poupança”, defende a gestora.

Mas Filipe Silva diz que o “investimento em ações, a rentabilidade, a volatilidade de preço e o risco também não são comparáveis”, dando como exemplo a queda de 9% desde o início do ano do principal índice bolsista porquguês e das ações europeias (EuroStoxx 600) que perdem também cerca de 9%.

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