Do copo meio cheio

Quando ingressei na Faculdade de Direito de Lisboa o meu sonho era trabalhar numa ONG ou numa Organização Internacional que me permitisse fazer o “bem”. No entanto, no último ano do curso, quando a maior parte dos meus colegas iniciaram as entrevistas para realizarem o estágio, descobri que a maioria das ONG internacionais exigiam anos […]

Quando ingressei na Faculdade de Direito de Lisboa o meu sonho era trabalhar numa ONG ou numa Organização Internacional que me permitisse fazer o “bem”. No entanto, no último ano do curso, quando a maior parte dos meus colegas iniciaram as entrevistas para realizarem o estágio, descobri que a maioria das ONG internacionais exigiam anos de experiência de trabalho que não tinha. Foi nessa altura que decidi realizar o estágio para ganhar a experiência necessária.
Decorridos sete anos continuo a ser advogada, o que não significa, de todo, que tenha desistido da ideia de praticar o “bem”. Simplesmente, ganhei consciência de que em qualquer profissão podemos fazê-lo, não sendo as boas acções monopólio de alguns, mas um desafio para todos. E principalmente apercebi-me que muitos advogados (em sociedade ou em prática individual), tal como outras empresas das mais diversas áreas, levam muito a sério as preocupações sociais.
Nestes últimos sete anos tive a oportunidade de presenciar e participar em várias acções de solidariedade das mais diversas naturezas: desde o pro bono (ou seja, a prestação de assessoria jurídica de forma gratuita aos que não têm capacidade financeira para pagar honorários), à organização de concertos de música para a angariação de fundos destinados a instituições de solidariedade social, campanhas de recolhas de alimentos realizadas interna e externamente, contribuições financeiras directas, participação em acções de limpeza e reabilitação de espaços sociais, entre muitas outras.
Quem me conhece sabe que (ainda) sou bastante idealista. Talvez seja por essa razão (ou talvez não) que defendo que todos temos deveres para com os que nos rodeiam. No papel de advogada, sei que esses deveres têm especial importância no que respeita à contribuição para o acesso à justiça. Na qualidade de ser humano, tenho a certeza de que, independentemente da profissão ou funções que exerçamos temos sempre a possibilidade de tornar este mundo um pouco melhor do que o encontrámos, quer através de acções conjuntas, quer individualmente, já que não nos podemos desresponsabilizar da prática solidária apenas porque não exercemos funções em ONG ou entidades públicas.
Nesta época festiva, entre a azáfama das listas de tarefas e preparativos a realizar, que têm de ser articulados com a intensidade de trabalho característica deste mês do ano, muitas vezes nos esquecemos do essencial. Na realidade, mesmo durante os restantes meses do ano, a prática de actos abnegados fica relegada para um segundo ou terceiro plano. É preciso forçarmo-nos a relembrar todos os dias da nossa humanidade e dos deveres inerentes à nossa condição, tendo consciência que por vezes bastam pequenos gestos para fazer a diferença na vida de alguém.

Inês Maltez Fernandes
Advogada, FCB&A

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