Dois aeroportos a sul do Tejo, mas zero mobilidade

Teremos dois aeroportos, mas continuaremos a ter “becos” de mobilidade entre municípios vizinhos, como é o caso do Barreiro e do Seixal, que distam em linha reta menos de 5 km, mas onde não existe qualquer solução de mobilidade pública credível que leve menos de 30 minutos de viagem?

A semana fica marcada pelo episódio confuso e burlesco do novo aeroporto internacional de Lisboa, que terminou, diga-se, sem qualquer consequência política para o ministro que, no meio do processo, passou por cima do primeiro-ministro e do presidente da república.

Este final de história deixa, aliás, muito a entender sobre o que será, provavelmente, a decisão final do projeto do aeroporto. No final do dia, como dizem os ingleses, quem decide é a maioria absoluta do Partido Socialista, e o alegado debate público com os partidos da oposição não deverá passar de um pró-forma de agenda política do primeiro-ministro, para poder alegar uma decisão inclusiva, e, pelo caminho, colocar no devido lugar, o seu maior opositor interno e principal candidato à sua sucessão, o ministro Pedro Nuno Santos – que sai deste episódio politicamente fragilizado.

Neste sentido, poucas dúvidas existirão neste momento que a solução anunciada será muito diferente da defendida pelo ministro das Infraestruturas, até porque este se mantém no lugar, com o aval do primeiro-ministro, apesar de tudo o que aconteceu.

Com um elevado grau de probabilidade, o novo aeroporto internacional de Lisboa irá situar-se em Alcochete, uma localização que aliás tinha vindo a ganhar força nos últimos tempos. Também será muito provável que se mantenha a proposta temporária no Montijo, espécie de solução “ponte” que deverá ter uma vida útil de cerca de dez anos.

A materializar-se este cenário, há uma pergunta óbvia. Se a solução estrutural é Alcochete, porque não avançar já? O país não abunda em recursos financeiros e existem outras prioridades de infraestruturas públicas (como na saúde) que devem ser tidas em consideração. Adiar para 2035 a infraestrutura que é a que resolve o problema estrutural não é transformar a solução temporária em definitiva? Já agora, neste cenário, em 2035, o que se fará do aeroporto do Montijo?

Por fim, mas não menos importante. Não deixa de ser curioso que a margem sul do Tejo tenha potencialmente dois aeroportos, mas continue sem soluções para que os seus habitantes se movimentem dentro dos seus concelhos e, desta forma, possa ser capitalizada a margem sul do Tejo como extensão natural de Lisboa, tornando-os acessíveis entre si, ganhando sustentabilidade económica, e porque não dizer, proporcionando qualidade de vida a cerca de um milhão de habitantes que vive a sul do Rio Tejo.

Nada, aliás, que não esteja pensado já. Mas, por exemplo, onde anda o projeto do metro sul do Tejo? Onde andam os investimentos públicos que podem servir a melhoria das condições de vida e de sustentabilidade de centenas de milhares de habitantes da Área Metropolitana de Lisboa, e que não sirvam apenas o interesse maior?

Teremos dois aeroportos, mas continuaremos a ter “becos” de mobilidade entre municípios vizinhos, como é o caso do Barreiro e do Seixal, que distam em linha reta menos de 5 km, mas onde não existe qualquer solução de mobilidade pública credível que leve menos de 30 minutos de viagem? Estão os 800 mil habitantes a sul do Tejo condenados a viver apenas das ligações com Lisboa, cada um fechado no seu próprio concelho?

Hoje já é mais fácil ir de transporte público do Montijo para Lisboa, do que ir do Montijo para Almada. Quase que apetece dizer que em 2035, para quem viva em Alcochete ou Montijo, provavelmente será mais fácil voar para Madrid, do que ir de transporte público para trabalhar em Seixal ou Almada.

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