Draghi junta-se a Juncker na defesa de um mercado de capitais único

Presidente do BCE voltou ainda a manifestar confiança na retoma da economia da zona euro, em especial para as condições de financiamento das empresas. No entanto, lembrou que continuam a ser necessárias reformas estruturais.

O presidente do Banco Central Europeu (BCE) defendeu um reforço da convergência europeia nos próximos anos para aumentar a eficiência da União Económica e Monetária. Num discurso no Parlamento Europeu, esta segunda-feira, Mario Draghi reafirmou os benefícios das políticas monetárias não convencionais para a retoma da economia da zona euro, em particular para as empresas, depois da crise.

“Nos próximos anos, um maior grau de convergência sustentada e reforço da resiliência vão ser necessários para alcançar um melhor funcionamento da União Económica e Monetária”, disse Draghi, na terceira intervenção no Parlamento Europeu este ano.

O líder do BCE defendeu que um sistema descentralizado é mais eficiente, acrescentando que devido à ausência de um “mercado de capitais verdadeiramente único”, os mercados continuam dependentes das especificidades de cada país. Assim, mostrou apoio ao projeto anunciado por Juncker em 2014 e que poderá tornar-se realidade em 2019, da criação de um mercado de capitais único.

“Uma união de mercados de capitais bem sucedida iria abolir as linhas divisoras entre jurisdições, com efeitos positivos para a forma como implementamos a política monetária”, explicou. “Não nos podemos esquecer que umas das razões fundamentais para a união monetária foi precisamente impulsionar a integração dos mercados de capitais e colher benefícios na forma de melhores condições de financiamento na zona euro”.

Sobre as condições de financiamento, Draghi falou ainda do programa de compra de ativos das empresas europeias, que ocorre em simultâneo com o de compra de títulos soberanos. Desde junho de 2016, o BCE já adquiriu cerca de 110 mil milhões de euros em títulos de 200 empresas não financeiras, em 20 países.

“As melhorias nas condições de financiamento decorrente do CSPP [Corporate Sector Purchase Programme] não se limita às empresas cujas obrigações são adquiridas ou ao mercado de dívida empresarial: são evidentes em todas as empresas e outros segmentos de mercado”, disse Draghi.

O italiano voltou ainda a manifestar confiança na retoma da economia da zona euro, mas lembrou que continuam a ser necessárias reformas estruturais. “O facto de as medidas de política monetária não convencionais do BCE estarem a ser eficazes em apoiar as condições de financiamento para as empresas e famílias da zona euro não nos pode fazer esquecer a situação que testemunhámos durante o pico da crise”.

“Fraquezas institucionais, fragilidades estruturais e tomada excessiva de risco contribuíram para um circuito de retorno negativo entre soberanos e bancos nalguns países, que prejudicaram significativamente a transmissão de política monetária”, apontou.

Enquanto a contração da economia da zona euro resultante destes problemas ameaçou a estabilidade dos preços de forma generalizada, assiste-se agora, segundo Draghi, ao mecanismo contrário, com os países a beneficiarem do ajustamento cíclico e de um melhor clima económico. Apesar de a inflação continuar abaixo da meta do BCE, o líder do banco central acredita que a recuperação económica irá levar a subida dos preços para próximo do objetivo de uma inflação próxima, mas abaixo de 2%.

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