Durão Barroso diz que Putin quer “transformar a Ucrânia num estado vassalo da Rússia”

Na conferência “A invasão da Ucrânia: Desafios para a Europa e para o Mundo”, da Gulbenkian, o antigo Presidente da Comissão Europeia disse ainda que a Rússia vai querer, em adição à perda de autonomia de Kiev, rearranjar as fronteiras para consolidar a sua posição. “É uma mudança de paradigma, nada será como antes de dia 24 de fevereiro de 2022”, afirmou.

O antigo presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, disse esta segunda-feira que um dos objetivos principais de Putin é “transformar a Ucrânia num estado vassalo da Rússia”, evitando a todo o custo a sua independência e autonomia.

O ex-primeiro ministro português afirmou, num evento promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian sobre o conflito, usar as suas interações e relações passadas com o presidente russo, Vladimir Putin, para dar a sua perspetiva.

Putin disse na altura da anexação da Crimeia que quem estava naquele território não eram as forças armadas russas, “e que se fossem ele me garantia que em menos de duas semanas tomariam Kiev”, contou Durão Barroso, que partilhou esta informação com os chefes de Estado e Governo da UE.

Na altura houve uma fuga que levou o Kremlin a confirmar e a dizer que tinha sido retirado fora do contexto. “Terá sido uma manifestação involuntária de um desejo (in)consciente? Ou seria um objetivo assumido a conquista da Ucrânia e a ocupação de Kiev? Não sabemos”, acrescenta.

“Putin viu que a Ucrânia se estava a escapar cada vez mais da ordem russa e a cair cada vez mais para o Ocidente, que não era uma Bielorrússia do sul. Mesmo que não estivesse em processo de adesão à NATO, Putin terá pensado que quanto mais tarde [interviesse] pior seria”.

Para o timing em questão, contribuiu ainda o facto de o presidente russo achar que, “depois da Síria, a Rússia está mais forte e que, depois do Afeganistão, o Ocidente os EUA estão mais fracos”.  Putin tem modernizado desde 2014  as forças armadas, e acumulado reservas para financiar a guerra, o que foi mais um fator em seu benefício.

Já a anexação da Crimeia foi uma resposta à associação com a União Europeia, acredita, pese embora o líder russo lhe tenha dito diretamente que não se opunha a uma adesão, apenas à NATO. Na altura e agora, o “que estava em causa era o facto de Putin não aceitar uma Ucrânia ocidentalizada, que seja vista como um desafio ao seu próprio poder e regime na Rússia, e que tivesse o sucesso económico de uma Polónia”.

Falando em concreto sobre esta invasão, o antigo presidente da Comissão Europeia disse que “o objetivo principal é o de evitar a todo o custo uma Ucrânia independente”, isto é, autónoma do ponto de vista da ação internacional e das das relações externas. “Poderá, eventualmente, ter soberania formal”, mas quererá “transformar a Ucrânia num estado vassalo da Rússia”.

Para além disso, poderá querer fazer “um rearranjo das fronteiras de modo a consolidar algumas posições que já tem”, nomeadamente na Crimeia, mas também no Donbass e quiçá outras, disse Durão Barroso.

“Putin é um produto do ressentimento e do extremo nacionalismo contra o Ocidente que culpa pela decadência e declínio da Rússia pós colapso da União Soviética”, apontou. “Para além disso, nunca aceitou verdadeiramente uma Ucrânia independente, com identidade própria”.

“Parece evidente que nem tudo está a correr como Putin queria, a resistência da Ucrânia é muito maior do que esperaria” e está a afirmar-se como uma nação que quer preservar a sua autonomia e independência, superando uma prova de fogo. “Ela está disposta a tudo para afirmar a sua nacionalidade”.

Ademais, está a ter uma “resposta mais forte e coerente do que pensava por parte do Ocidente”. “O que ele viu foi uma notável unidade europeia, incluindo de governos que poderia considerar mais próximos. E uma convergência muito grande entre UE e EUA que se traduz no isolamento diplomático da Rússia” e de “sanções económicas sem precedentes”.

“Estamos perante uma mudança de paradigma, nada será como antes de dia 24 de fevereiro de 2022”. afirma, apontando que na UE se quebraram tabus: a Alemanha enviou material de guerra para zona de conflito, afirmou gastar 2% do PIB em matéria de defesa e abandonar o projeto Nord Stream. Isto leva-o a considerar que nunca houve tanto a favor de uma identidade europeia de segurança e defesa.

Outra consequência deste conflito é a consolidação do laço entre a NATO e a Europa. “Precisamos mais da NATO do nunca para defender a Europa”, disse, salvaguardando que “a NATO também precisa da UE para lhe dar força”, veja-se a adesão da Suíça às sanções.

Depois, apontou que “a China está numa posição desconfortável e de neutralidade colaborante com a Rússia” e que se manterá nesse caminho no futuro próximo.

Durão Barroso prevê que “é possível que tenhamos um mundo dividido em dois” opondo o Ocidente e o bloco formado pela China, Rússia e alguns aliados. “Não é o cenário desejável para quem quer um mundo e um mercado plural e aberto”, mas Pequim “vê nos EUA o seu inimigo principal e não vai descartar o seu aliado mais valioso, a Rússia, nesse combate”.

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