Dúvidas e desafios

Será que a coexistência de eleições europeias, nacionais e regionais vai permitir criar as melhores condições para debater o país que queremos?

A poucos dias de terminar mais um ano, vale a pena passar em revista os últimos meses e antever os próximos, que surgem no horizonte com algumas nuvens de incerteza. Desde logo porque 2018 nos vai deixar num clima de agitação social poucas vezes visto nos últimos anos.

Novembro e dezembro ficarão associados a um número assustador de paralisações setoriais em várias áreas da administração pública. Falo de enfermeiros, trabalhadores de hospitais, estivadores, guardas prisionais, funcionários judiciais, bombeiros, funcionários de registos e notariado, inspetores de investigação, fiscalização e fronteiras, trabalhadores da CP e do Metro do Porto, etc. Ao longo deste último mês, não houve um único dia sem uma greve.

A este cenário não será alheio o facto de existir quase um milhão de portugueses que vive uma situação de precaridade laboral, número que tende a crescer uma vez que este vínculo instável com o emprego tem aumentado quase 10% ao ano, deixando muitos cidadãos empregados numa situação de insegurança e exposição à evolução da economia. A incerteza atinge também os salários, agora acrescida pela mais recente discrepância pública e privada com salários diferenciados por decreto governativo.

No que toca à economia, a OCDE prevê um abrandamento global, com base na constatação de que o ciclo de expansão já atingiu o seu limite. Em Portugal, estima-se um crescimento de 2,1% em 2019 e 1,9% em 2020 (depois de um crescimento de 2,2% este ano). Com uma crescente dependência externa e uma dívida pública bruta gigante – que, em outubro, voltou a fixar novo recorde, em 251,1 mil milhões de euros – Portugal depende cada vez menos de si próprio.

Politicamente, 2019 ficará marcado pelas eleições para o Parlamento Europeu, em maio, para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira, em setembro, e para a Assembleia da República, em outubro. Perspetivam-se alterações de equipas e novas lideranças. A questão é saber se a coexistência de eleições europeias, nacionais e regionais permitirá criar as melhores condições para debater o país que queremos? Haverá espaço para tomar medidas estruturantes mesmo que pouco populares? Avançarão obras decisivas para o nosso desenvolvimento socioeconómico?

Na Europa, quatro instituições terão novos líderes – Comissão Europeia, Conselho Europeu, Parlamento Europeu e Banco Central Europeu – e manter-se-á um dos mais complexos dossiers da história da União Europeia: o Brexit, cujas consequências ainda estão por apurar.

O ano de 2019 que se inicia é uma grande dúvida e um enorme desafio. Os portugueses ainda não esqueceram os difíceis momentos da crise e da intervenção externa. É pouco provável que voltem a perdoar anos de má governação e de má liderança.

O Estado precisa de criar soluções para os desafios demográficos decorrentes da baixa natalidade e do envelhecimento ativo, para evitar o agravamento das desigualdades sociais e globalização desregulada, das alterações climáticas, da pobreza e da exclusão social. Sem perder de vista que todos estes problemas terão de ser trabalhados num ambiente de grande transformação digital.

Não faltam, pois, desafios para o nosso país, que terá de adotar um novo modelo de desenvolvimento económico e social, que passe inevitavelmente por libertar a economia, para criação de riqueza, reforçando os instrumentos regulatórios, sem pôr em causa a competitividade. Não haverá futuro sem que sejam criadas as melhores condições para uma sociedade civil criativa, empreendedora e inovadora, com um Estado forte e eficiente. Esta é a única forma de atingir o verdadeiro crescimento económico. O verdadeiro e aquele que todos merecemos em 2019. Bom ano!

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