É a anemia, estúpido

O INE tem revelado que o pecado do Governo não está na devolução mais acelerada de rendimentos. Os problemas estão no investimento.

Os dados sobre a evolução económica estão a gerar comportamentos de claque nos principais partidos políticos, reveladores da tensão acrescida que o Parlamento ganhou com os acordos à esquerda.

O PS mostrou um entusiasmo pré-adolescente com um trimestre em que o PIB avançou 1,6% em termos homólogos e 0,8% em cadeia. É um bom desempenho, sem dúvida. Mas não há qualquer garantia de que este nível de atividade económica tem pernas para andar, quando as ondas de protecionismo no Reino Unido e nos EUA podem provocar tensões políticas e económicas à escala global. Como Portugal é vulnerável a qualquer espirro do exterior, a prudência seria boa conselheira.

O que fica do PSD é mais confrangedor. Desvalorizar a trajetória da economia e compará-la com o crescimento do PIB de 1,6% no total do ano passado só mostra como a oposição está fora de pé. Por altura do Orçamento do Estado para 2016, o combate da direita era a possível descida do rating da DBRS, um segundo resgate e o diabo a sete. Agora discute umas quantas décimas do PIB. Se Portugal conseguir um défice mais baixo, um nível de crescimento pouco diferente do ano passado e isso se revelar compatível com reversão de cortes salariais, da sobretaxa no IRS e a reposição de apoios sociais, o parco discurso político da oposição esvazia-se de vez.

O INE tem revelado que o pecado do Governo não está na devolução mais acelerada de rendimentos – o consumo privado até contribuiu para amortecer a degradação do ambiente externo durante alguns meses do ano. Os problemas estão no investimento. Um acordo tripartido que torna cada orçamento uma disputa sobre que partido tem a medida mais bonita para pôr à lapela não é propriamente um chamariz para quem quer investir.

Mas os partidos da oposição estão longe de capitalizar a incerteza parlamentar inerente a este Governo. Sem qualquer projeto alternativo galvanizador, Passos reduz-se a um mero fantasma da troika passada. Mesmo que os autarcas façam com que o PSD vença o maior número de câmaras nas eleições autárquicas de 2017, o líder da oposição pode enfrentar nessa altura o seu momento António José Seguro: mesmo ganhando, vê-se corrido da liderança por uma ânsia coletiva de que o partido represente algo mais do que a anemia.

Mas não é fácil perceber como – ou quem – poderá tirar o PSD da situação em que entrou. Rui Rio posiciona-se como candidato, mas está por provar que tem um pensamento político consistente e aceitação nas próprias bases. Aparentemente, uma fação do partido preferia antes que Santana Lopes disputasse o lugar de Passos. O líder de um governo que durou 28 dias seria substituído por um que durou cinco meses. Haja ambição.

 

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