É fogo que arde (por vezes) sem se ver

Hoje, passados cinco anos, num momento particularmente sensível para quem vê os incêndios próximos de si ou dos seus familiares e amigos, muitos dos que sofreram com a tragédia de 2017 sofrem ainda sem que tenham tido acesso a qualquer tipo de apoio psicológico.

No dia 17 de Junho de 2017 o país conhecia a sua maior tragédia resultante de incêndios florestais. Dezenas de mortes, centenas de feridos e milhares de pessoas em sofrimento psicológico, uma parte delas resultando no desenvolvimento de perturbações mentais como a Depressão ou Stress pós-traumático. Nesse fim de semana, entre várias intervenções na comunicação social face ao pedido de ajuda psicológica que as populações manifestavam, esclareci sobre os impactos psicológicos desta tragédia e sobre o trabalho dos psicólogos e psicólogas no terreno.

Nessa altura tranquilizei os cidadãos sobre a disponibilidade destes profissionais no terreno, tanto ao nível da sua presença efectiva como da sua competência e elevada especialização para a necessária intervenção em crise e catástrofe, mas também alertei para a preocupação existente sobre a possibilidade de poderem obter o, para alguns, indispensável apoio continuado após a intervenção em crise.

Nesses dias, à saída de uma reunião no Ministério da Saúde, convocada de emergência sobre o tema, tive oportunidade de dizer “é preciso colocar mais recursos no terreno para apoiar as vítimas dos incêndios a longo prazo” e acrescentei que saí do encontro sem informação de que as vítimas conseguissem ter apoio psicológico mais continuado ao longo dos próximos meses.

Hoje, passados cinco anos, num momento particularmente sensível para aqueles que veem os incêndios próximos de si ou dos seus familiares e amigos, muitos dos que sofreram com a tragédia de 2017 sofrem ainda sem que tenham tido acesso a qualquer tipo de apoio psicológico.

Depois de incêndios devastadores, de uma pandemia e de uma guerra na Europa que entra pela TV nas nossas casas, de um plano nacional de saúde mental que teve um atraso de 20 anos na sua execução, de uma histórica desvalorização da importância da saúde mental e da sua priorização, do humor negro da total incapacidade de um Estado contratar um número mínimo e irrisório de psicólogos e psicólogas (que devem ser profissionais muito mais difíceis de contratar do que outros tipos de profissionais que são contratados aos milhares, mesmo que ainda de forma insuficiente), chegamos a Julho de 2022 e … pouco ou nada mudou (com uma honrosa e valiosa excepção decorrente da revisão do sistema de gestão de operações da protecção civil).

Ou, na verdade, até mudou. Mudou para pior (ou melhor, dependendo do ponto de vista) no consumo de psicofármacos, na saúde mental dos portugueses, nas perdas para economia e nos impactos nas aprendizagens e bem-estar das crianças e jovens (uma vez que os 1000 novos psicólogos contratados para as escolas nos últimos seis anos não podem fazer o trabalho de promoção e de prevenção que a boa prática determina porque estão assoberbados devido à ausência de resposta nos centros de saúde, cujo trabalho têm que substituir).

Mudou para pior pois o já insuficiente número de psicólogos nos centros hospitalares começa a reduzir-se ainda mais pela saída dos mais experientes, que, depois de 20 anos sem melhorias das suas condições de trabalho, procuram legitimamente por melhores condições no sector privado, num movimento de esvaziamento do SNS silencioso.

Agora que o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) começa a executar uma política de saúde mental, começando pelos mais vulneráveis, aqueles que sofrem de doença mental, fica a pergunta: é desta que se tentará evitar esta outra tragédia crescente de vidas destruídas? De futuros e sonhos gorados de tantos cidadãos que não têm o acesso aos serviços de psicólogos que necessitam? É desta que, pelo menos, se duplica o número de psicólogos nos núcleos de psicologia dos centros de saúde? É desta que se criam condições para fixar os altamente especializados psicólogos dos centros hospitalares e se reforçam os seus serviços de psicologia?

Ou isso ou deixamos continuar a arder silenciosamente…

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