É o tempo de Portas!

Entre os candidatos a primeiro-ministro é preciso estar muito atento a um  líder partidário que, apesar de ser candidato a deputado, não é candidato a chefe de Governo. Esse é Paulo Portas. Ao ser candidato na coligação PaF, Portas não é, claramente, candidato a primeiro-ministro. Os candidatos são, por exemplo, Passos Coelho, António Costa, Jerónimo […]

Entre os candidatos a primeiro-ministro é preciso estar muito atento a um  líder partidário que, apesar de ser candidato a deputado, não é candidato a chefe de Governo. Esse é Paulo Portas. Ao ser candidato na coligação PaF, Portas não é, claramente, candidato a primeiro-ministro. Os candidatos são, por exemplo, Passos Coelho, António Costa, Jerónimo de Sousa, Catarina Martins ou Manuel Ramos, o advogado invisual cabeça-de-lista do MPT por Lisboa.

Paulo Portas, tal como Rui Tavares ou Marinho Pinto, é líder de um partido, mas ao contrário destes últimos, não é, em teoria, candidato à chefia do governo. Se, por exemplo, a coligação PaF ganhar, não será Portas que vai ser apontado ao presidente da República para o cargo de primeiro-ministro, pois ele não é o líder do primeiro partido da coligação. Se vencer o PS, o primeiro-ministro poderá ser António Costa. Se o MPT tiver a maioria dos votos, o primeiro-ministro poderá chamar-se Manuel Ramos. Se vencer o Livre ou PDR, o presidente da República poderá ter de pedir a Rui Tavares ou Marinho Pinto que formem governo.

Em nenhum cenário pós-eleitoral está previsto que Cavaco Silva venha a ter de pedir ao líder do CDS que se encarregue de organizar a chefia do destino da Nação. Mas, agora pensem todos comigo: Portas é o mais antigo e experiente político presente nestas eleições. Ainda era adolescente e já escrevia cartas a dar conselhos a Sá Carneiro. Ramalho Eanes, como presidente da República, processou-o por difamação, mas desistiu quando soube que se tratava de um menor.

Era jornalista no semanário Tempo ao mesmo tempo que frequentava os corredores da Presidência do Conselho de Ministros como membro da juventude social-democrata. Recebeu a ficha de adesão ao PSD enrolada como um papiro das mãos da secretária de Sá Carneiro, Conceição Monteiro. Isso foi em Setembro de 1980, quando Portas cumpriu 18 anos de idade. A ficha estava assinada pelo primeiro-ministro, que foi assassinado três meses depois, juntamente com o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, dirigente do partido hoje presidido pelo ex-PSD Paulo Portas. Seis meses após Camarate, Portas entrevistava Cavaco Silva e escrevia elogios a uma figura que ele achava que deveria ser o líder do seu partido. Portas, sempre político, levou a política para o jornalismo quando, a partir de 1988, fundou o semanário O Independente e fez carreira a atacar o cavaquismo.

Portas foi depois deputado, ministro de várias pastas e, finalmente, vice-primeiro-ministro. Só lhe faltam duas coisas: ser primeiro-ministro e Presidente da República. Atenção que a primeira delas poderá começar a ser-lhe dada já a partir da noite de 4 de Outubro próximo. Face ao percurso político de Portas, face à possibilidade de não haver maioria absoluta para a coligação ou para o PS, se o povo português não der força representativa a outras forças políticas mais moderadas, então não vai haver consenso possível na Assembleia da República. E é aí que Portas vai entrar… Cavaco, em fim de mandato, poderá ser confrontado com a impossibilidade de um entendimento entre PSD e PS.

Mas, para evitar a clivagem socialista para a esquerda, ainda vai ser chamado a dar posse a um governo de Bloco Central moderado pelo segundo líder da coligação PaF. Nessa altura, não haverá o Paulo Portas dos ataques contra o cavaquismo do tempo do Independente. Será o Portas do tempo do Tempo que o Presidente da República vai ter pela frente. Esta solução certamente que não vai desagradar aos “mercados”, sempre desejosos de estabilidade. PSD e PS vão fazer assim uma limpeza democrática, pois ficam no governo sem parecer que estão lá. O próximo presidente da República, entretanto, vai herdar este governo de Portas. Mas, será que o vai apoiar? Enfim, nada que uma boa “vichyssoise” não resolva!

Frederico Duarte Carvalho
Jornalista e escritor

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