É preciso fechar as torneiras

No total, em Portugal os dados apontam para cerca de 3.100 milhões de metros cúbicos de água desperdiçada por ano. Uma brutalidade. Campanhas assertivas precisam-se.

Está na altura de percebermos que temos mesmo de adotar novos comportamentos, no que toca ao consumo de água. Não podemos esperar que sejam sempre os governantes ou “os outros” a resolver o problema, se não nos envolvermos também e às nossas famílias reduzindo o desperdício no dia a dia. Sendo que tal, obviamente, não impede que o Governo deva tomar iniciativas de curto prazo para incentivar essa mesma mudança comportamental.

Muito recentemente, a Ordem dos Médicos Dentistas lançou uma boa campanha apelando ao fecho das torneiras durante a lavagem dos dentes. Salientando que uma torneira aberta durante dois minutos – o tempo recomendado para a escovagem dos dentes – pode gastar até 24 litros de água e que a escovagem dos dentes deve ser realizada, pelo menos, duas vezes ao dia, a campanha demonstra que a poupança de água por pessoa pode chegar por dia aos 48 litros, ou seja, 17.520 litros de água por ano. O que daria para bebermos um litro de água por dia durante 48 anos!

É este tipo de campanhas, assertivas e facilmente entendíveis, que o Governo deve promover a nível nacional. No final de julho, a reunião da Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento dos Efeitos da Seca juntou o ministro do Ambiente e a ministra da Agricultura para o anúncio da realização de algumas obras estruturais e empreitadas para a otimização de vários sistemas hídricos, mas ficou de fora – e não deveria – a questão da sensibilização dos cidadãos.

Uma campanha dessas a nível nacional para esse efeito poderá até já estar paga à cabeça, se pensarmos que o Governo dificilmente terá já esgotado o espaço destinado a publicidade institucional que comprou antecipadamente no valor de 15 milhões de euros na comunicação social. Ou pelo menos tal não foi demonstrado.

No total, em 2019, perderam-se 188 mil milhões de litros de água nas redes de abastecimento, de acordo com o relatório anual dos serviços de águas e resíduos em Portugal (RASARP 2020), da ERSAR de 2020 que alertava para a necessidade de investir nas infraestruturas e de lutar contra as perdas de água na rede. Significa este montante o equivalente a perdas nas redes de 30%, na média nacional. E a somar a esta perda nas redes ainda temos os desperdícios no consumo pelas famílias. No total, em Portugal os dados apontam para cerca de 3.100 milhões de metros cúbicos de água desperdiçada por ano. Uma brutalidade.

Em 2021, um estudo promovido pela Águas de Portugal concluía que os portugueses estão conscientes das consequências associadas ao desperdício de água, mas que pouco fazem para evitá-lo e 61,8 % assumiram que desperdiçavam mais água do que verdadeiramente necessitavam utilizar.

O mesmo estudo identificava – e bem! – a necessidade de campanhas de sensibilização comportamental incluindo dicas de poupança em lugar de mensagens alarmistas e penalizadoras. Mas a verdade é que ambas as mensagens se justificam. A poupança é um estímulo para a redução do desperdício, mas o alarme é necessário para que, coletivamente, se compreenda a dimensão do problema. Nas cidades, como no campo, há que saber quando fechar as torneiras.

 

Ben Stansall/AFP

Como sportinguista e como português, não poderia deixar de dar os meus parabéns à atleta Auriol Dongmo, que bateu o recorde nacional ao ar livre para o lançamento do peso e, com a marca dos 19,82 metros, conquistou a primeira medalha para o atletismo português nos Campeonatos da Europa da modalidade, que integram este ano os Europeus multidesportos, em Munique. O desporto não é só futebol e isso deve ser lembrado sempre que possível, através de ótimos exemplos como o seu.

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