E se David Ricardo fosse vivo…

Ficaria certamente muito desencantado. Que sugestões faria para lutar com a atual crise no Reino Unido? Exigiria também a reversão do Brexit como o fazem alguns liberais daquele país?

Da mesma forma que a globalização é um fenómeno que diz respeito à integração das economias, com inerentes movimentos de produtos, serviços, capitais e pessoas, a desglobalização diz respeito ao movimento reverso e carateriza-se pela procura de soluções nacionais para produtos antes importados, por maiores controles das fronteiras, pela definição de tarifas alfandegárias mais elevadas e outros obstáculos à circulação de pessoas, bens, serviços e capitais.

Não é um conceito novo e dele cada vez mais ouvimos falar, com as contingências verificadas no comércio internacional. O termo popularizou-se com os recentes fenómenos do foro económico e financeiro, político e social, e onde se destaca, evidentemente, a pandemia da Covid-19. Porém, que não se pense que foi a pandemia, o gatilho para os problemas decorrentes da desglobalização. Outros fatores estão a base deste fenómeno que está hoje na ordem do dia e cuja génese se situa pelo menos dez anos antes.

Entre 1995 e 2008, com relativa paz mundial, vivemos um período de crescimento económico interessante e que permitiu que o peso do comércio internacional no PIB mundial crescesse duas vezes mais do que o crescimento do próprio PIB. Na verdade, mesmo para o período entre 1999 e 2019, dados do BCE (de 2021) apontam também para um crescimento do peso do comércio internacional no PIB mundial, de 31 para 54%. Porém, a mesma fonte indica também que o primeiro sinal da desaceleração da importância do comércio internacional começou a revelar-se quando, para o mesmo período, os EUA viram o peso do comércio internacional no PIB crescer menos de metade do valor indicado para o mundo.

A Grande Crise Financeira de 2008, com a consequente perda de empregos nos EUA (cerca de 700 mil/mês) redundou no pior período de crescimento do PIB americano nos últimos 60 anos da sua história. Para debelar a crise, Barack Obama aprovou o “Recovery Act” que incluía um conjunto de medidas conducentes à criação de emprego e ao investimento na economia nacional. As medidas permitiram dar início à recuperação da economia, com a criação sucessiva de empregos até janeiro de 2014. Todavia, a crise teve repercussões sobre as compras de produtos ao exterior, acabando o resultado por se estender a toda a economia mundial, num efeito que se prolongou durante anos.

Este efeito agudizou-se com o Brexit que começou a ganhar forma após o referendo de 2016 e com a eleição de Donald Trump em 2017, que, com o movimento “Make America Great Again”, colocou um travão às importações americanas, nomeadamente da China. A introdução de tarifas à importação e a renegociação dos termos da NAFTA, com efeitos relevantes sobre o comércio com o Canadá, resultaram num revés significativo para a globalização. Desnecessário será dizer que o valor acrescentado das exportações se reduziu substancialmente, assim como o bem-estar mundial se retraiu de forma geral.

Perante o cenário negativo da economia mundial, só faltava mesmo somar-se a pandemia e as consequências dos confinamentos, a que se juntou a reestruturação no setor dos transportes marítimos, e a já esperada disrupção das cadeias de abastecimento. Mais recentemente, a guerra da Ucrânia veio expor ainda mais a fragilidade decorrente da elevada interdependência das economias mundiais, criado assim uma necessidade urgente para se obterem consensos internacionais, pelo menos, numa tentativa de resolver esta dificuldade do foro económico. É que todos estes fatores, exponenciados pelo efeito multiplicador da sua simultaneidade, romperam com a aspiração do livre comércio e da especialização, como impulsionadores de um melhor bem-estar para as economias dos países envolvidos.

Se David Ricardo fosse vivo, ficaria certamente muito desencantado: a sua visão de redução das desigualdades decorrente da especialização dos países e talvez até de redução da pobreza, e que presidiram à sua obra ao longo da vida, sofreriam revezes que certamente não teria o economista, empresário e parlamentar britânico antecipado que viessem a acontecer mais de duzentos anos depois do seu postulado. Que medidas será que proporia agora? Que sugestões faria para lutar com a atual crise no Reino Unido? Exigiria também a reversão do Brexit como o fazem alguns liberais daquele país? Ou será que, sendo descendente direto de judeus sefarditas portugueses, procuraria fazer uso das suas origens e garantir para si mesmo, pelo menos, a liberdade de circulação na União Europeia?

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