E se o humor não se levasse tão a sério?

Fora da esfera do serviço público, o uso não inclusivo da linguagem é livre. E inclui o direito a ofender. Mas ver no direito a ofender o direito a passar sem crítica e repreensão social a ofensa que exclui e discrimina é auto-indulgência.

Eu gosto muito do humor do RAP. Dos sketches hilariantes do Gato Fedorento. Destas crónicas inteligentes e bem escritas reunidas agora no livro “Reaccionário com Dois Cês”. Devo ao RAP muitos bons instantes, e não é só o seu talento, é também porque me sinto em sintonia.

É um tipo da minha geração, nascido ali por volta do 25 de Abril, já crescemos completamente fora das redes do autoritarismo e fomos logo os últimos antes dos que já só cresceram ligados às redes e aos dispositivos móveis. Redes diferentes decerto, mas ambas tão importantes para podermos dizer, com pompa identitária, que somos ao mesmo tempo uma geração primeira e uma geração última.

Depois deste enquadramento posso ir ao osso da questão. Não há nada de inaceitável em nenhuma crónica do RAP, nada que por si mova uma crítica profunda. Há deslizes, coisas que podem ser um pouco irritantes, como dizer que poucos pensam como ele sobre liberdade de expressão. Ele que quando apanha, umas páginas atrás, outros a fazer afirmações gerais logo pergunta pela amostra, pela ficha técnica da sondagem e o diabo a quatro. Mas isto tem uma importância menor.

Coisa mais séria é quando o RAP declara, por exemplo, que o moderno anti-racismo se parece com o velho racismo. Até se pode acompanhar o argumento de base. Quem passou pelo “The Human Stain” do Philiph Roth não pode deixar de o fazer. E certamente passámos ambos, faz parte da instrução da geração. Mas esta comparação é um exemplo inaceitável de arte da desproporção. Já para não falar de que se compara duas realidades como se uma nada tivesse que ver com a outra, como se o anti-racismo, com as imperfeições, proselitismo, estupidez e tudo o mais que é desta vida e exige atenção crítica, não fosse fundamentalmente a primeira frente da luta contra o racismo, aquele que se soletra com todas as vogais e consoantes e não admite uma comparação destas.

É aqui que encontro o ponto central que me leva a discordar e a querer criticar – o que nada tem que ver com censura, atenção – o conjunto dos textos que RAP integrou neste livro. O problema é muito menos o que está lá do que o que não está. O que não se escreve também conta quando as omissões são evidentes. Para começar esta, sobre o que move o anti-racismo e a eficácia com que se opõe ao velho, mas sempre rejuvenescido, racismo. Outra, sobre o que demarca o que é a liberdade de expressão. A mais fundamental, sobre o que é isso do politicamente correcto, ao que vem, como e para quê. Uma omissão geral que não é uma ausência, mas um manter caladinho enquanto se lhe dá uma tareia valente. E assim se perde uma boa oportunidade para pensar o humor.

Por princípio, o humor é politicamente incorrecto no sentido em que denuncia e expõe estereótipos ao ridículo, lhes encontra um ângulo em que não queriam ser vistos – ou nem imaginavam que existisse. Não é nada bom que se ponham travões a este politicamente incorrecto. É mesmo muito importante que nos façam rir de nós próprios, porque isso é pôr um travão à nossa tendência para disparatar. E se não vai assim, vai com sarcasmo, fazendo com que os outros se riam de nós.

Mas tudo isto equivale a dizer que o humor conta muito mais para o lado do politicamente correcto, porque nos faz rir de estereótipos que discriminam e excluem. Há mais politicamente correcto nos sketches do Gato Fedorento do que em muita palermice bem-intencionada no jargão politicamente correcto. Portanto, era conveniente o profissional do humor não se achar visado quando se chama a atenção para a importância social do “politicamente correcto” no sentido apropriado da palavra, e que não cedesse espaço a uma utilização deturpada da expressão — utilização essa que, na verdade, tem vindo a servir uma agenda de discriminação e exclusão.

Por princípio, o politicamente incorrecto que exclui e discrimina fá-lo usando uma linguagem, palavras, imagens, arte. Mas isso não significa que a linguagem discrimine. A sua utilização, o uso que dela se faz, é que discrimina ou não. Esta confusão entre linguagem e o seu uso produz resultados desastrosos. Se se corta parte do vocabulário da nossa língua, mesmo se muitos usos desse vocabulário são especialmente discriminadores, não se dá a oportunidade de outros usos que os subvertam. “Queer”, por exemplo, foi um insulto, como lembra muito bem o RAP. Excluir a linguagem como politicamente incorrecta comprime a própria possibilidade de um bom politicamente incorrecto. Uma linguagem filtrada não consegue responder ao estereótipo. E é um disparate perigoso condicionar a língua.

Escritores, humoristas, mulheres e homens adultos não podem ter uma relação condicionada com a língua se é nela que exprimem os seus maiores dilemas, as suas emoções mais viscerais, as suas vidas. Que não se subestime a linguagem. É para maiores de 18 anos. De adultos para adultos. Ou andamos a fingir não sei o quê. É tão importante que os rapazes e raparigas lá para os 15,  nos seus décimos anos borbulhentos, precisam de entrar neste universo. Seja pela música, pelo cinema, ou pela literatura. Falhar isto é falhar-lhes algo imperdoável. Nisto, creio acompanhar a preocupação do RAP.

Agora, outra coisa é o uso da linguagem exigível a certas pessoas e a certas instituições. Professores, detentores de cargos políticos, o Estado e os seus funcionários públicos nas interacções com a sociedade e as pessoas de que ela é feita, todos estes devem estar obrigados a usar linguagem inclusiva e a não usar nenhuma que exclua ou discrimine. Ou seja, digo-o pausadamente, linguagem politicamente correcta.

Fora todos as supramencionadas vítimas destes deveres atentos, o direito aos usos não inclusivos da linguagem é um direito que fica à responsabilidade de cada um. Os jornais avaliarão a dose de correcção política que lhes pareça adequada à sua missão pública. As televisões avaliarão que horários mais nobres justificarão algum freio. As empresas lá saberão da conveniência de assim o fazerem.

Fora da esfera do serviço público, o uso não inclusivo da linguagem é livre. E inclui o direito a ofender. Aliás, ofender não é uma acção mais politicamente incorrecta do que politicamente correcta. Ofender o racista sem o injuriar, humilhar-lhe a inteligência expondo o estúpido que é, ou o xenófobo, ou o misógino, que bem que faz. Mas ver no direito a ofender o direito a passar sem crítica e repreensão social a ofensa que exclui e discrimina é auto-indulgência. Ver na crítica social pública um acto de censura é vitimização. E achar que o humor fica acima disso tudo é confusão.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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