Editorial. A ilusão à esquerda

O país está expectante. Não está habituado a dar importância à negociação política quando está em causa a eventual mudança de regime. O país está estupefacto porque a maioria dos eleitores nunca pensou que a governação pode ser dos vencidos. Aconteceu o 4 de outubro e a ilusão tomou conta de todos. Pela leitura que […]


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O país está expectante. Não está habituado a dar importância à negociação política quando está em causa a eventual mudança de regime. O país está estupefacto porque a maioria dos eleitores nunca pensou que a governação pode ser dos vencidos. Aconteceu o 4 de outubro e a ilusão tomou conta de todos.

Pela leitura que se fazia na quarta-feira, António Costa quer ser Governo, e pelas declarações, insinuações e omissões, um acordo à esquerda é bem mais interessante – em termos pessoais – do que um acordo com a coligação vencedora do centro direita. O ponto nevrálgico da estratégia de Costa é os mercados e daí as entrevistas dadas a orgãos de comunicação estrangeiros especializados em economia. O objetivo foi acalmar mercados, decisores, políticos europeus e evitar a “satanização” do PS e do seu líder em particular, perante uma alternativa consistente à esquerda.

Um PM vai ser suportado por partidos anti-troika, anti-Nato, anti-euro, defensores da renegociação da dívida e que renegam o tratado orçamental? Costa negou tudo e PCP e Bloco já tinham feito o mesmo. Aceitam tudo. Não há perigo da “syrização” da sociedade portuguesa, argumentam socialistas e é bem possível que os mercados se vão adaptando e a compressão de yields de dívida pública de longo prazo volte a ganhar ritmo.

É ainda possível que perante compromissos internacionais definidos pelo Governo de Passos, qualquer novo Governo consiga uma melhoria do rating que, não esqueçamos, continua no nível de “lixo”.

O tema está em outro ponto cardeal. Com os sinais atuais, Costa e Passos não se entenderão e cada um se apresentará ao PR como potencial PM a indigitar. Cavaco Silva pode ter de engolir o sapo e escolher um PM que lhe dê estabilidade parlamentar, mas com forças em que ele não confia. E é aqui que radica o maior problema. Um Governo à esquerda irá manter os compromissos internacionais? Daquilo que se sabe de Cavaco, este não acredita. Irá um Governo do PCP e Bloco entender-se? Nunca aconteceu. Ou será que haverá entendimentos pontuais e no resto o PS será Governo com a ajuda do PSD?

Costa dirá que fez o trabalho de casa, mas foi vencido pelo PR, caso este não acredite na benevolência dos apoios parlamentares. Evitará ruturas no seu partido e preparará as eleições, pois um Governo PSD/CDS cairá rapidamente com uma moção de rejeição. Depois esquecerá os entendimentos à esquerda e pugnará pelo voto útil no PS. Por seu lado, e após a dissolução do parlamento, Passos terá argumentos para lutar por mais uma dúzia de deputados e reganhar estabilidade.

Por Vítor Norinha/OJE

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