Edson Chagas ocupa o Hangar com “sentimentos descartáveis”

A urbe nas sociedades contemporâneas tem sido, amiúde, matéria-prima de eleição para o artista angolano Edson Chagas. “Factory of Disposable Feelings”, a sua segunda exposição individual em Lisboa, oferece uma nova janela sobre o seu olhar introspetivo e melancólico.

© Edson Chagas

Edson Chagas tem a sua matriz no fotojornalismo, mas isso não o amarrou a certos cânones do género. Pelo contrário, desamarrou-se deles e mergulhou numa abordagem introspetiva e muito pessoal. Tempo e espaço estão sempre lá, na sua dimensão social e poética, concreta e abstrata.

O artista angolano traz a sua cidade natal, Luanda, para a série de fotografias que inauguram a 24 de setembro no Hangar – Centro de Investigação Artística, em Lisboa, mais concretamente o bairro do Cazenga, num trabalho realizado entre 2017 e 2018. “Factory of Disposable Feelings”, assim se chama a exposição, foi apresentada inicialmente a solo na Cidade do Cabo, África do Sul, e chega agora a Lisboa com uma nova configuração, que inclui imagens inéditas.

E, muito embora nela se plasmem muitas das suas preocupações recorrentes, nomeadamente os contextos socioculturais das cidades contemporâneas, nesta série Edson Chagas coloca o seu olhar ao serviço das relações vivenciais e afetivas que os seus habitantes estabelecem com objetos e espaços quotidianos, “contrariando rápidos ritmos de consumo através de um olhar desacelerado que perscruta em proximidade matérias, formas e texturas descartadas”.

Nesta que é a segunda exposição individual do artista em Lisboa, com curadoria de Ana Balona de Oliveira depois de ter apresentado “Muxima” na galeria .insofar, em outubro de 2021, o artista estreita-se e afasta-se de séries anteriores, onde o foco eram os espaços públicos das urbes, para se concentrar unicamente num “tecido” muito específico. E aqui tecido é uma metáfora para a Fábrica Irmãos Carneiro no Cazenga, em Luanda, uma antiga fábrica têxtil fundada no período colonial, que, pertencendo a uma família luso-angolana, continuou a laborar após a independência de Angola e durante as várias fases da guerra civil (1975-2002), produzindo lençóis, fraldas e uniformes militares, etc.. Mais recentemente, a fábrica foi redirecionada para a produção de utensílios agrícolas, e acabou por ser parcialmente abandonada.

Um percurso ainda jovem, mas sólido

Chagas iniciou os seus estudos na na ETIC – Escola Técnica de Imagem e Comunicação, Lisboa, Portugal, e depois partiu para Inglaterra para estudar fotografia no London College of Communication, Londres (2007) e também na University of  Wales, Newport, País de Gales (2008).

No ano de 2013, a sua série “Found Not Taken” foi exibida enquanto parte integrante de “Luanda, Encyclopeadic City”, o Pavilhão Angolano da 55ª Bienal de Veneza, que nesse mesmo ano foi galardoado com o Leão de Ouro para melhor pavilhão nacional. Edson Chagas conta ainda no currículo com a nomeação para o 11º Prémio Novo Banco Photo e com uma exposição no Museu Berardo, em Lisboa, em 2015. O Smithsonian National Museum of African Art, em Washington, atribuiu-lhe um “African Art Award” em 2018.

Entre exposições individuais e coletivas, caso da recentíssima “Shifting Dialogues: Photography from The Walther Collection” na Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, Chagas vai trilhando um caminho quiçá marcado por uma certa poesia e melancolia.

“Factory of Disposable Feelings” pode ser vista no Hangar – Centro de Investigação Artística, em Lisboa, entre 24 de setembro e 5 de novembro.

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