‘Einstein meets Chaplin’: uma reflexão sobre pensamento crítico

O humor tem má fama e é tido como uma afronta à seriedade e o método científico, moroso e inquisitivo, não se adequa à velocidade de um mundo sem tempo para esperar.

Há uma história que se perpetuou no meu imaginário e que reforçou a minha ideia de que pensar criticamente sobre o mundo que nos rodeia é um processo que tem tanto de científico, como de humorístico.

Em 1931, na estreia do seu filme “City Lights” (“Luzes da Cidade”), Charlie Chaplin era apresentado a Albert Einstein. Aparentemente, o ator cómico era a única personalidade em Hollywood que despertava a curiosidade do cientista.

As palavras com que iniciam o diálogo são de uma sofisticação simplificada característica dos grandes génios.

Einstein diz a Chaplin: “O que mais admiro na sua arte é a sua universalidade. Não diz uma palavra, mas toda a gente o percebe.”

Chaplin responde: “A sua glória é ainda maior, o mundo admira-o, apesar de não perceber uma palavra do que diz.”

Com alguma tristeza minha, e apesar da dimensão intelectual de qualquer uma destas personalidades, nenhuma delas teria aderência ao mundo atual dos negócios.

O humor tem má fama e é tido como uma afronta à seriedade e o método científico, moroso e inquisitivo, não se adequa à velocidade de um mundo sem tempo para esperar.

Pelo contrário, a minha tese, é que uma combinação entre o método cientifico e o olhar humorístico é um caminho virtuoso para a capacidade de pensar criticamente, tão necessária à resolução de problemas.

O pensamento crítico é definido como a utilização da lógica e da razão para identificar as vantagens e desvantagens de soluções, conclusões e/ou abordagens alternativas.

O ceticismo, a curiosidade agressiva e o teste e validação de hipóteses, características dos bons cientistas, parecem ter uma aderência total ao conceito acima descrito.

Já a forma como os bons humoristas interpõem distância entre eles e o seu contexto, fornece-lhes instrumentos ímpares para analisarem a realidade enquanto a desconstroem.

Nas palavras de Ricardo Araújo Pereira: “O segredo do olhar humorístico é olhar como mais ninguém olha e ver o que mais ninguém vê. São duas coisas diferentes. Olhar como mais ninguém olha significa adoptar um ponto de vista experimental; ver o que mais ninguém vê significa descobrir o que está escondido à vista de todos dentro do ponto de vista convencional.”

Adotar pontos de vista alternativos à resolução de desafios empresariais que, à data, apresentam um grau de novidade sem precedentes, parece-me ser, em última análise, uma decisão sensata.

No limite, e mesmo que não cheguemos a conclusões brilhantes, ter um cientista e um humorista a discutir na nossa cabeça terá sempre mais piada do que ouvir um monólogo de um gestor.

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