Eleições no Brasil: mais Dilma, com o mesmo samba?

A recente reeleição da Presidente Dilma Rousseff, com 51% dos votos, não suscitou um particular interesse da impressa internacional, que continua focada noutras notícias da atualidade mundial, como os casos de Ébola ou os conflitos no Médio Oriente. É verdade que a reeleição da Dilma Rousseff como Presidente do Brasil pouco alterará o cenário político […]

A recente reeleição da Presidente Dilma Rousseff, com 51% dos votos, não suscitou um particular interesse da impressa internacional, que continua focada noutras notícias da atualidade mundial, como os casos de Ébola ou os conflitos no Médio Oriente.
É verdade que a reeleição da Dilma Rousseff como Presidente do Brasil pouco alterará o cenário político nacional e muito menos modificará a agenda política internacional do país. Mas este facto é por si próprio digno de referência e análise!
Sendo certo que Dilma foi reeleita devido ao apoio popular angariado por via das políticas sociais implementadas por si e pelo seu alter ego Lula da Silva, que nos últimos anos permitiram retirar trinta e seis milhões de Brasileiros da pobreza extrema, a política externa adoptada por Dilma também determinou e continuará a determinar o futuro politico do país. Quais são então os pontos chave da política externa do governo Dilma e quais as repercussões para o Mundo?
Enquanto maior potência regional da América Latina e uma grande potência emergente, fazendo parte dos BRICS, o Brasil deverá continuar a apostar numa ordem mundial multipolar e menos assimétrica, focando principalmente na cooperação Sul-Sul, no aprofundamento da sua parceira com os BRICS (avançando para além da criação do Novo Banco de Desenvolvimento e do Arranjo Contingente de Reservas), fundamentalmente com a China, o seu principal parceiro comercial desde 2009. Simultaneamente, o Brasil deverá manter e desenvolver uma relação construtiva, mas menos prioritária, com o velho mundo, e em particular com os EUA e a Europa.
Se é expectável que Dilma Rousseff assuma uma linha de continuidade do posicionamento político-diplomático do país na cena global, há contudo um grande objetivo de política externa que o Brasil ainda não alcançou e que poderá ser a peça chave na reaproximação do país com o velho mundo: tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
O Conselho de Segurança da ONU foi criado no pós-Segunda Guerra Mundial, com base num sistema mundial bipolar, de duas grandes potências, os Estados Unidos da América e a União Soviética. À época, a ONU tinha 50 membros, agora tem 193. Dada a alteração ocorrida no contexto internacional, com a redução relativa da hegemonia dos EUA e da UE e o crescente protagonismo da China e da Índia, a política brasileira continuará, de forma geral, a procurar elevar e promover o seu perfil global.
O Brasil é um candidato natural à condição de membro permanente do Conselho, em virtude da sua dimensão territorial, política e económica, e do papel construtivo e pacífico que tem desempenhado no sistema multilateral desde a criação da ONU. O Brasil está entre os dez maiores contribuintes da organização, e participou em mais de 30 operações de paz desde 1948.
As instituições internacionais devem representar o mundo do século XXI de forma mais eficaz e abrangente, e conceder uma voz mais ativa – e com responsabilidades acrescidas – às potências emergentes como o Brasil.
Portugal, dadas as suas ligações culturais e económicas com o Brasil, onde se inclui uma língua comum e uma elevada interação política e económica, deverá agir como facilitador e interface privilegiada de diálogo entre o velho e o novo mundo. E ao assumir este papel, Portugal estará a abrir novos horizontes políticos, e a reforçar a sua já relevante
dimensão político-diplomática na cena internacional.

Evanthia Balla
Professora universitária

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