Eleições nos EUA. Guerra na Ucrânia longe do pensamento dos votantes

Ao mesmo tempo, democratas e republicanos divergem sobre apoio financeiro a Kiev.

10 – Estados Unidos

Mais de oito meses depois da invasão da Ucrânia pelo exército russo, o conflito continua a ter efeitos globais, mas não está no topo dos assuntos para os eleitores americanos que vão votar nas eleições intercalares.

“Infelizmente, a guerra na Ucrânia não está na linha da frente na mente dos americanos neste ciclo eleitoral”, diz à Lusa Byron Burton, que vota em Los Angeles. Burton traçou um paralelo com outras questões internacionais recentes, como a retirada desastrosa das tropas americanas do Afeganistão.

“A culpa estava sob a administração [de Donald] Trump”, considera. “A negociação foi colocada sobretudo nos ombros de Joe Biden. Mas ninguém fala sobre isso ou pensa nisso”.

O mesmo está a acontecer com o conflito na Ucrânia, opina. A caminho das urnas nas eleições intercalares, que vão decidir o controlo do Congresso, “o foco principal está no tópico do aborto e políticas económicas no geral, em relação aos preços da gasolina e desse tipo”.

Para Ziv Ran, a guerra na Ucrânia não é um tema quente por outro motivo. “Não está de imediato no pensamento porque, até agora, ambos os partidos apoiaram a Ucrânia”.

De facto, o apoio a Volodymyr Zelensky e as ajudas financeiras e militares à Ucrânia, que têm sido fundamentais para a resistência do país durante a invasão, foi dos poucos temas consensuais no espetro político.

“A Ucrânia tem sido a única coisa em que republicanos e democratas concordam”, aponta o cientista político Everett Vieira III.

No entanto, esse consenso pode ter os dias contados, como explica a cientista política luso-americana Daniela Melo, professora na Universidade de Boston.

“O último pacote de ajuda à Ucrânia só recebeu votos negativos à direita. Foram 57 contra na Câmara e 11 contra no Senado”, sublinha a especialista.

A politóloga explica que a questão da Ucrânia está a revelar-se fraturante para o partido republicano, uma vez que o líder minoritário no Senado, Mitch McConnell, continua a apoiar a Ucrânia.

“Mas McCarthy quer manter a liderança e precisa do apoio dos ‘trumpistas’. O mais provável é que ele tome uma posição ambivalente quanto à Ucrânia”.

Num momento de contra-ofensiva ucraniana, “qualquer sinal que os Estados Unidos possam deixar de apoiar o país vai ser negativo para os ucranianos, não só material mas moralmente”.

Jean-Luc Valentin, que cresceu em Nova Iorque e está radicado em Los Angeles, também não está a considerar a questão da Ucrânia nas suas contas para as intercalares.

“Nem por isso”, diz à Lusa. “Tudo o que está na linha da frente é a economia e o problema do aborto”, continua.

Ziv Ran também menciona a questão do aborto de forma indireta, falando ainda da defesa da democracia. “Vou votar em todos os casos no partido que acreditar na democracia, mesmo quando perde, e no direito da mulheres a fazer escolhas sobre o seu próprio corpo”.

Para Valentin, a decisão está tomada. “Um partido quer tirar os nossos direitos enquanto o outro quer protegê-los e preservá-los. É uma escolha simples”.

A escolha pode ser simples para muitos eleitores, especialmente numa Califórnia que elege sempre mais democratas, mas as contas finais estão a ser difíceis de fazer por causa de todas as variáveis e de ser uma eleição “fora dos parâmetros normais”, segundo Daniela Melo.

Ainda assim, o conflito na Ucrânia não parece ser um dos mais prementes. Everett Vieira III faz uma análise abrangente sobre os motivos para isso.

“As pessoas têm memória curta”, indica. “Há coisas a acontecerem na Ucrânia, envia-se armas, a Nancy Pelosi e o McConnell vão lá, e depois nada”, continua. “Passaram-se oito meses. Aquilo passa-se lá, e aqui? E os meus preços da gasolina, o meu bacon?”, exemplifica. “O americano típico não quer saber do que se está a passar por lá”.

Vieira considera que um Congresso liderado pelos republicanos não diminuiria necessariamente as ajudas à Ucrânia, mas essa é uma possibilidade em especial se a situação ficar mais grave.

Se a economia piorar e o ‘cinto’ apertar, salienta, “as pessoas vão perguntar ‘porque é que estamos a enviar ajuda para a Ucrânia se as pessoas estão com fome aqui?”.

 

Democratas e republicanos divergem sobre apoio financeiro a Kiev

O apoio financeiro dos Estados Unidos à Ucrânia, outrora consensual, é agora tema de divergência entre democratas e republicanos e a sua continuidade pode estar em causa após as eleições intercalares de 08 de novembro.

Os Estados Unidos já autorizaram mais de 60 mil milhões de dólares (60,7 mil milhões de euros) em ajuda à Ucrânia, com mais 18,5 mil milhões de dólares (18,7 mil milhões de euros) em ajuda militar desde janeiro de 2021, quando o Presidente, Joe Biden, chegou à Casa Branca.

O apoio financeiro dos Estados Unidos a Kiev, para enfrentar os ataques da Rússia, vinha até então recebendo um forte apoio bipartidário, quer no Senado, quer na Câmara dos Representantes.

Contudo, o líder dos republicanos na Câmara, Kevin McCarthy, abalou essa unidade ao alertar em outubro que o seu partido não passará um “cheque em branco” à Ucrânia se conquistar a maioria dos assentos nas intercalares.

Na ocasião, McCarthy sugeriu que os norte-americanos querem que o Congresso se concentre em questões “mais próximas de casa”.

Essas declarações levaram à indignação de Joe Biden, que usou um evento de angariação de fundos em Filadélfia, na Pensilvânia, um estado-chave para as eleições de meio de mandato, para criticar essa posição republicana face à guerra.

“Eles [os republicanos] dizem que, se vencerem, provavelmente não continuarão a financiar a Ucrânia. Eles não entendem. Isto é muito maior que a Ucrânia. É a Europa Oriental. É a NATO”, criticou Biden, avaliando que os republicanos “não entendem a política externa norte-americana”.

Espera-se que o número daqueles que desconfiam da ajuda externa e adeptos da agenda ‘America First’ [América primeiro, na tradução para português] do ex-presidente Donald Trump cresça no Congresso a partir destas eleições.

Em setembro, JD Vance, candidato republicano ao Senado pelo estado de Ohio, disse que deseja que “os ucranianos sejam bem-sucedidos”, mas não por causa do financiamento contínuo dos Estados Unidos.

“Acho que temos que chegar a um ponto, e é aí que discordamos. Temos que acabar com a torneira de dinheiro para a Ucrânia eventualmente. Não podemos financiar um conflito militar de longo prazo que acho que, em última análise, tem retornos decrescentes para nosso próprio país”, afirmou, citado pelo jornal Washington Post.

Vance já havia provocado a fúria da comunidade ucraniana nos Estados Unidos quando disse num ‘podcast’, pouco antes da invasão russa, que “realmente não se importava com o que acontecia com a Ucrânia”.

Porém, até mesmo dentro do próprio partido o assunto não é consensual, com um republicano de alto escalão no comité de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes, Michael McCaul, que poderá liderar o comité no caso de uma vitória republicana em 08 de novembro, a argumentar que o fornecimento de armas para a Ucrânia deveria ser intensificado.

“Temos que lhes dar o que eles precisam. Quando lhes damos o que precisam, eles vencem”, disse McCaul à Bloomberg, referindo-se ao Sistema de Mísseis Táticos do Exército (ATACMS), que tem um alcance maior do que os mísseis que o executivo de Biden tem fornecido a Kiev.

Embora a guerra na Ucrânia não tenha sido o foco central das campanhas eleitorais de ambos os partidos, é notório que a maioria dos candidatos que quer recuar no apoio a Kiev integra o grupo de republicanos que negaram ou questionaram o resultado da última eleição presidencial, que deu a vitória a Biden contra Trump.

Sobre o conflito na Ucrânia, Trump tem mantido a retórica de que se estivesse no poder nunca teria havido guerra. Em 17 de setembro, num comício em Ohio, o republicano alertou que os Estados Unidos “podem acabar numa Terceira Guerra Mundial”.

“Agora temos uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia com potencialmente centenas de milhares de pessoas a morrer, algo que nunca teria acontecido se eu fosse Presidente. Isso nunca teria acontecido se a eleição não tivesse sido manipulada”, afirmou.

Os temores de que o apoio norte-americano diminua já chegaram a Kiev.

Um alto funcionário ucraniano, que falou sob condição de anonimato ao Washington Post, disse que a dependência quase total da Ucrânia de ajuda militar e económica estrangeira significa que os seus militares devem recuperar rapidamente o máximo possível de território controlado pela Rússia antes de qualquer potencial abrandamento de apoio ocidental.

“As eleições intercalares dos Estados Unidos são um dos fatores que nos preocupam em relação ao inverno. A Rússia vai ganhar vantagem com o novo Congresso e com os europeus que os chantageiam na política energética. É por isso que a ofensiva atual é tão importante”, disse o funcionário.

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