Eleições presidenciais na Colômbia: esquerda consegue vitória inédita

A vitória do ex-rebelde Gustavo Petro marca a primeira eleição presidencial de um líder de esquerda na história da Colômbia. Não é uma grande notícia para os Estados Unidos: como ficou claro na Cimeira das Américas, a mensagem de Biden não está a chegar ao sub-continente.

Aos poucos, a geografia da América Latina vai polvilhando de presidentes e executivos liderados por personalidades ligadas aos partidos de esquerda. Depois do Peru e do Chile, desta vez foi a Colômbia que, de forma inédita, votou maioritariamente, à segunda volta (e tal como já tinha sucedido na primeira), no ex-rebelde Gustavo Petro para ocupar o lugar da presidência do país.

Petro obteve 50,4% dos votos, derrotando por muito pouco o magnata populista Rodolfo Hernandez. Entre as suas promessas de campanha, Petro disse que irá abordar a profunda desigualdade social e económica na Colômbia tradicionalmente conservadora, onde sucessivos governos se concentraram principalmente em lidar com a insegurança e a violência ligadas ao conflito armado de quase seis décadas no país e à produção de droga (que tantas vezes têm estado ligadas).

Para além da Argentina, Peru e Chile, também o México, a Bolívia e as Honduras – para além dos ‘suspeitos do costume, Cuba, Venezuela e Nicarágua – moveram-se para a esquerda nas últimas eleições, embora alguns observadores tenham argumentado que a mudança está mais enraizada no populismo que na ideologia.

A vitória foi largamente saudada por vários líderes regionais. O presidente da Argentina, Alberto Fernández – envolvido numa grave crise interna e que assumiu o cargo em 2019 depois de concorrer por uma coligação de esquerda – tuitou no domingo que a vitória de Petro “valida a democracia e garante o caminho para uma América Latina integrada, neste momento em que exigimos máxima solidariedade entre povos irmãos”.

Pedro Castillo, presidente do Peru (envolvido numa crise interna talvez ainda mais aguda que na Argentina, disse estar ansioso para trabalhar com o seu novo aliado colombiano. “Estamos unidos por um sentimento comum que procura a melhoria da integração coletiva, social e regional dos nossos povos”, disse.

O presidente do Chile, Gabriel Boric, que foi eleito no início deste ano para substituir o conservador Sebastian Piñera, disse que a vitória de Petro “alegra a América Latina”. “Trabalharemos juntos pela unidade do nosso continente nos desafios de um mundo que muda rapidamente”, tuitou.

Por seu lado, Luis Arce, da Bolívia, que assumiu o cargo de presidente em 2020, disse que “a integração latino-americana está fortalecida”.

Já o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, disse que o sucesso do Petro pode anunciar um período de recuperação do país, numa referência à guerra civil colombiana de 10 anos que eclodiu após o assassinato do candidato presidencial de esquerda Jorge Eliecer Gaitan, em 1948. O assassinato foi precursor do conflito de seis décadas entre o governo e grupos rebeldes de esquerda, principalmente as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que assinaram um acordo de paz com Bogotá em 2016.

O líder venezuelano Nicolás Maduro, que tinha relações tensas com o ex-presidente colombiano Ivan Duque (devido ao seu apoio a Juan Guaidó) também saudou a vitória de Petro. “A vontade do povo colombiano foi ouvida, para defender o caminho da democracia e da paz”, disse.

Mais lacónico, o líder da diplomacia da União Europeia, o espanhol Josep Borrell, disse que os colombianos votaram “por uma sociedade mais inclusiva e mais igualitária”.

Gustavo Petro, de 62 anos, era um membro não-operacional do grupo rebelde M-19, chegou a estar preso e foi torturado. O grupo ficou famoso por fazer reféns entre os principais juízes do país, num confronto que matou quase 100 pessoas em 1985.

O novo presidente – que recebe um país fraturado a meio, prometeu que iria promover empréstimos de baixo custo para pequenas empresas, a redistribuição de pensões para garantir que trabalhadores informais recebam um pagamento mínimo, o aumento dos impostos sobre as grandes propriedades improdutivas, e a diminuição dos preços do petróleo e do carvão.

Petro disse ainda que quer mudar o relacionamento da Colômbia com os Estados Unidos – mas sabe que mais um governo de esquerda na América Latina não é uma boa notícia para a administração democrata de Joe Biden. Numa área onde a política norte-americana difere muito pouco entre democratas e republicanos, a proliferação de governos de esquerda não vai de encontrou às prioridades da Casa Branca para o ‘seu quintal do sul’.

Aliás, como ficou claro com a realização este mês, em Los Angeles, da Cimeira das Américas, Biden tem experimentado as maiores dificuldades em alinhar os pobres países da América Latina em torno de um projeto de ação comum e em estancar a influência cada vez mais dominante da China na região.

A grande ameaça para a região, pelo menos do ponto de vista da Casa Branca, é agora a forte possibilidade de o ex-presidente brasileiro Inácio Lula da Silva poder vir a reocupar o Palácio do Planalto.

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