Eleições, uma infraestrutura crítica

Já quase ninguém se arrisca a lançar um míssil ou a plantar uma bomba para semear o caos numa grande potência. É muito mais barato e conveniente atacar por via do ciberespaço.

55% da Internet está em baixo, alerta o chefe dos serviços de inteligência britânicos no arranque da série televisiva “The Undeclared War”, em exibição no Channel 4. O Reino Unido acaba de sofrer um ciberataque massivo, “direcionado para causar a maior perturbação possível e pôr em risco o mínimo número de vidas”. Desconhece-se ainda o autor da ofensiva, mas suspeita-se que o timing não é inocente: as eleições gerais aproximam-se.

Na vida real, cenários como este passaram a agitar o pensamento de governos do mundo inteiro e a formar parte das discussões internacionais sobre a segurança no ciberespaço. Apesar de não existir uma definição de infraestrutura crítica aceite a nível global, todos entendem o conceito: são os órgãos vitais de uma nação, sem os quais ela não pode funcionar minimamente, são os alvos passíveis de gerar a tal enorme perturbação nas populações, se atacados com êxito.

Poucos países tornaram pública a lista de sectores considerados essenciais. A larga maioria escusa-se a falar sobre o assunto, para não dar ideias aos adversários. De qualquer maneira, parte do segredo é sobejamente conhecido e encontra-se até explanado numa diretiva europeia e em documentos de trabalho das Nações Unidas. Com pequenas variações, Energia, Transportes, Comunicações, Abastecimento de Água, Serviços Financeiros e de Saúde têm assento permanente no conjunto dos sistemas críticos.

A estes alvos tradicionais das ofensivas militares, poderá vir a juntar-se um novo, de natureza marcadamente política: a infraestrutura eleitoral. Isto é, a base de dados do recenseamento, os sistemas eletrónicos responsáveis pela contagem, validação e anúncio das votações, e ainda as instalações de armazenamento de votos. Os Estados Unidos já deram esse passo. Na sequência da tentativa de interferência russa nas eleições de 2016, declararam a infraestrutura eleitoral como um dos seus 16 sistemas críticos e muitos outros países deverão seguir o mesmo caminho.

Em primeiro lugar porque, como procura demonstrar o drama “The Undeclared War”, já quase ninguém se arrisca a lançar um míssil ou a plantar uma bomba para semear o caos numa grande potência – é incrivelmente mais barato e conveniente atacar por via do ciberespaço, seja para causar estragos económicos ou para inclinar o tabuleiro político. Tanto que, de facto, tem crescido o número de casos em que se regista um aumento de ciberataques em vésperas de eleições. Aquilo que aconteceu na Ucrânia em 2019 acontece também, por estes dias, no Quénia, que está prestes a escolher um novo presidente.

Em segundo lugar porque, em virtude da imparável digitalização do quotidiano, o voto eletrónico deixará de ser a exceção para se tornar a norma, impondo cuidados especiais de segurança. Razão pela qual, por exemplo, o Tribunal Superior Eleitoral do Brasil já realiza regularmente simulações de tentativas de infiltração nas urnas eletrónicas.

Mas às tentativas de adulterar os resultados soma-se outra ameaça já estabelecida: campanhas de desinformação e de incitação ao ódio nas redes sociais, cada vez mais a ágora do nosso tempo. Nesse sentido, a força moral do Ocidente, que advém da realização de eleições livres e da recusa em criminalizar a desinformação, tornam-no um alvo privilegiado no ciberespaço.

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