“Empresas de marca e investigação portuguesas, como as do café, também têm direito ao selo Portugal Sou Eu”

O secretário de Estado Adjunto e da Economia, Leonardo Mathias, diz que as empresas de marca e investigação portuguesa também podem aderir ao Portugal Sou Eu. A fazer um trabalho sobre o Portugal Sou Eu apareceram algumas intrigas políticas pelo meio. Dizem-me que o programa foi uma ideia do ex-secretário de Estado Carlos Oliveira, levada […]

O secretário de Estado Adjunto e da Economia, Leonardo Mathias, diz que as empresas de marca e investigação portuguesa também podem aderir ao Portugal Sou Eu.

A fazer um trabalho sobre o Portugal Sou Eu apareceram algumas intrigas políticas pelo meio. Dizem-me que o programa foi uma ideia do ex-secretário de Estado Carlos Oliveira, levada a Conselho de Ministros sem se estar à espera. Isto é verdade?

Aliás, a ideia original foi de Carlos Coelho, da Ivity Brand, especialista em marcas. Numa viagem à Ásia começa a escrever sobre o assunto e apresentou a ideia ao Álvaro Santos Pereira. Disse que devíamos de criar um programa, um apelo, digamos assim, uma convocatória de factos e de emoções sobre Portugal. E, aparentemente, Álvaro Santos Pereira disse que sim e disse-lhe para apresentar a ideia ao Carlos Oliveira, que acaba depois por levar o programa para a frente.

Mas tenho a informação de que o Programa chegou a Conselho Ministros sem que a equipa soubesse de alguma coisa. Tomaram conhecimento do tema apenas na altura. Será possível?

Tenho muitas dúvidas. Raramente funciona assim o processo legislativo, mesmo só em resoluções. Imaginemos que há um decreto-lei do Ministério da Economia, da minha Secretaria de Estado, faço-a correr nas outras Secretarias de Estado do Ministério, corre por todos os gabinetes de todos os Ministérios, os pontos são consensualizados, vai para a chamada reunião de secretários de Estado, às segundas-feiras, onde é já discutido pela primeira vez, já não numa perspetiva técnica mas numa perspetiva política, e aquilo que é consensualizado vaio diretamente para Conselho de Ministros.

E o que não é consensualizado?

Ou volta atrás, quando se vê que há muitos pontos em discussão, que a parte técnica não foi suficientemente apurada, ou quando de fato há uma diferença política. Muito raramente um tema não vai a Conselho de Secretários de Estado na segunda para seguir para Conselho de Ministros na quinta. Eu não sei, não estava cá, portanto não me quero pronunciar sobre isso. Mas, não há segredos nestas matérias, antes pelo contrário, porque o interessante é que quantos mais Ministérios, quanto maior envolvimento existir, melhor. Duvido muito que o Ministério não soubesse e que o ministro não estivesse completamente consciente do assunto. Isso não é tema. Há um percurso extremamente claro de tudo o que segue para Conselho de Ministros. Se me disser que vamos nomear uma pessoa e que tem de seguir para Conselho de Ministros apenas um dia antes…

Mas aqui não há qualquer tipo de segredo.

Pois não. Aqui interessava era exatamente o contrário, era a maior divulgação possível. Sei que o ministro Álvaro Santos Pereira passava todos os dossiers a pente fino.

Há quem receie que este seja um projeto político e que esteja sempre a mudar consoante ganhe um ou outro partido. É possível?

Obviamente que o Compro o Que é Nosso era um bom projeto da AEP (Associação Empresarial de Portugal). Sobre o Portugal sou Eu, que eu herdei, não o criei, em conjunto com o meu gabinete, chegámos à conclusão que é um programa extremamente importante, porque podia não só cativar como incentivar as empresas portuguesas a produzir e a reconhecer-se com produtos de valor acrescentado nacional. Vimos os estudos que foram feitos no Reino Unido, e nos outros países onde a identificação do produto, o facto de ter um dístico nacional, era relevante. Umas das coisas do estudo do Carlos Coelho aponta para que 30% dos britânicos se tivessem um produto com o selo GREAT Britain comprariam esse em detrimento de outro. Analisámos isso com cuidado e achámos, também na perspetiva do produtor português, que era muito importante ter um consumidor informado.

Como assim?

Se o consumidor tiver consciência que certo produto tem valor acrescentado português e que é um produto português, é importante. Lembre-se que nos últimos anos tem sido difícil passar uma mensagem de força e de confiança, pelo que achámos que este era um elemento muito importante de identificação nacional. E sem sermos protecionistas e sem pormos dinheiro do Estado, porque o financiamento vem de fundos comunitários. Eram fundos comunitários que tinham de ser utilizados, através do Compete, e que eram importantes para as empresas, os produtos e os consumidores portugueses. A partir daí, decidimos que era muito importante dar vida ao conselho estratégico do programa, que só tinha reunido uma única vez. Já reunimos duas vezes este ano e voltamos a reunir em breve, onde estão os parceiros protocolados, mas também outras entidades, por exemplo do turismo, a Aped – Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, a Direção Geral de Atividades Económicas e a do consumidor, a Ahresp – Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, o Instituto Português da Qualidade (IPQ), o Ministério da Agricultura, a Associação nacional de Municípios, fazem todos parte do conselho estratégico, onde perguntamos à sociedade civil o que acham ou não acham bem, e pedimos programas.

Então o programa ainda pode mudar?

E tem vindo a mudar, o que tem sido positivo, ganhámos maior perfil. Introduzimos um programa de embaixadores e temos cerca de 15 embaixadores, desde a Cristina Vieira, à Cláudia Vieira, ao Júlio Isidro, à Cuca Roseta, a locutoras de televisão, que são pessoas que nas suas várias profissões acharam este um programa positivo que quiseram ajudar a promover. Subimos o perfil mediático e de visibilidade, fizemos uma campanha publicitária em vários meios. As associações como a CAP – Agricultores de Portugal, a AEP e a Associação Industrial Associação Industrial Portuguesa (AIP), em conjunto com o Iapmei – Agência para a Competitividade e Inovação, fizeram um sem fim de eventos para explicar o Portugal Sou Eu às empresas, para que ficassem sensibilizadas a aderir e temos um site. Por outro lado, fizemos um protocolo com a Aicep – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal que ajuda principalmente as pequenas e micro empresas que vão às feiras internacionais.

A Aicep junta-os todos no mesmo stand?

Sim, passam a estar todos no mesmo stand sob a marca Portugal e com o mesmo dístico, o que é uma grande vantagem. Estamos no tecido económico, ajudando estas empresas a identificarem-se e a evoluírem. Temos projetos também, do ponto de vista estratégico, para evoluir para os serviços. Não há razão para que um bom atelier de arquitetura ou um laboratório de engenharia não tenha o selo Portugal Sou Eu, antes pelo contrário. E como sabe, os serviços representam cerca de 30% das exportações deste ano. Os serviços são cada vez mais importantes. E vamos ter um protocolo com a Ahresp nesse sentido.

Ou seja, é uma forma de fazer com que deixe de ser um programa político?

Ele não é um programa político.

De iniciativa política?

Acho que foi uma ideia de um particular que foi bem acolhida. Sinceramente, quando cá cheguei à Secretaria de Estado, em julho do ano passado, uma ideia que estava parada, mas que vimos com muitos bons olhos. E quem fez o trabalho e merece os enormes elogios são, acima de tudo, o Iapmei, a CAP, a AIP e a AEP, que têm tido um papel fundamental na divulgação junto dos seus associados. Não veja isto como um programa político de um governante, é a sociedade civil a trabalhar com a sociedade civil, com o nosso apoio inequívoco, porque é bom para todos. Já vi pessoas no supermercado a ver se os produtos têm os selos. O IKEA tem um programa de cadeiras e mesas portuguesas e vai ter o autocolante, o McBifana tem o selo Portugal Sou Eu. Vemos as empresas, por um lado e os consumidores por outro, e isso é que nos dá alento. Queremos continuar com este programa para além desta legislatura e os louros são das entidades que trabalham diariamente, dos portugueses que aderiram a este programa.

Mas ainda se veem poucos selos do Portugal Sou Eu nas prateleiras dos supermercados.

Eu falei, como os vários intervenientes, e a grande preocupação deles era o que fazer com os selos que já tinham do Compro o Que é Nosso. Deixem escoar. Não tem de se estragar nada, nem pensar. Havia um bom programa, mas este é um programa transversal a toda a sociedade, a todo o consumidor, a todo o produtor, que acho que tem mais força. E é algo que identifica o País, convoca à emoção. E neste selo temos a palavra Portugal, pelo que fizemos uma estratégia de internacionalização e fizemos um protocolo com a Aicep, assinado por mim e Miguel Frasquilho, para ajudar justamente as empresas na internacionalização. Portanto, tem a componente de produção nacional, de consumo informado e a componente de internacionalização. Tem um impacto muito maior. E quando vimos o Presidente da República, no dia 5 de outubro, este ano, com uma exposição de 61 produtos Portugal Sou Eu no Palácio de Belém… É uma coisa que nos cativa. E relembro que 74% dos produtos têm patente portuguesa, uma coisa que não estávamos à espera, há uma dose fortíssima de inovação.

Há empresários que se queixam pelo facto de a certificação ter de ser feita produto a produto. É por isso que na grande distribuição apenas a Sonae aderiu?

Outro tema que foi muito debatido foi o das marcas brancas, se podiam ou não ter o selo. É um tema que está em debate e em aberto. Pode haver produtos de marca branca com o selo e outros que não. Mas estamos a pensar nisso, porque no próximo programa, um dos aspetos que estamos a debater, é se queremos ter esta dicotomia entre ser muito restritos nos critérios aritméticos de escolha e aquilo que são marcas tradicionalmente portuguesas, com empresas tradicionalmente portuguesas, mas que importam a matéria-prima. O exemplo que nos dão sempre é o do café. Estamos neste momento a fazer um estudo e a falar com o IPQ para que… Essas empresas, que são marca portuguesa, exportador português, trabalhadores portugueses, investigação portuguesa, não é um produto Portugal Sou Eu porque só porque a matéria-prima vem de fora?

Carlos Caldeira

Recomendadas

Emirados Árabes Unidos vão fornecer à Alemanha gás liquefeito e gasóleo em 2022 e 2023

Segundo a agência noticiosa oficial dos Emirados, Wam, o acordo prevê a exportação de uma carga de gás natural liquefeito (GNL) para a Alemanha no final de 2022, seguida do fornecimento de quantidades adicionais em 2023.

Angola cresce 3,5% este ano, mas abranda para 1,8% em 2023

“O forte crescimento de Angola este ano dificilmente vai prolongar-se para 2023, já que a produção petrolífera deverá regressar à tendência decrescente”, lê-se numa análise às maiores economias da África subsaariana, região que deverá ver o PIB deste ano expandir-se 3,3%, abrandando face aos 4,4% do ano passado.

China diz que EUA estão a enviar “sinais perigosos” sobre Taiwan

O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês deixou claro que uma escalada das atividades independentistas torna difícil um acordo pacífico, no que diz respeito a Taiwan,