Empresas reafirmam investimento contra riscos cibernéticos

A cibersegurança é uma prioridade para as empresas. O reforço do investimento na proteção de contra ataques mantém-se apesar da conjuntura atual marcada pela subida dos custos. 

Steve Marcus/Reuters

Se havia dúvidas, estão desfeitas. O investimento na área da cibersegurança é e vai continuar a ser uma prioridade para as empresas apesar da conjuntura adversa marcada pela subida dos custos e das taxas de juro. Nem as nuvens da recessão que emergem no horizonte são suscetíveis de alterar o azimute.

“Temos uma profunda mudança em curso que é irreversível e imparável”, afirma Carlos Jesus, Country Manager da Colt Portugal e VP Global Service Delivery da Colt, ao Jornal Económico. Na sua perspetiva, o reforço do investimento na proteção dos ataques vai não só manter-se como aumentar. “A pandemia tornou ainda mais evidente e premente a transformação digital e obrigou as empresas a digitalizar todos os seus processos e negócios”, justifica. Atualmente, defende, nenhuma empresa pode ignorar a necessidade de digitalização, dado que dela depende o sucesso e o futuro da sua atividade. “Diria até que, o aumento de custos veio, inclusive, reforçar esta tendência e acelerar ainda mais o processo, até como forma de limitar o aumento dos custos. Basta pensar no que a implementação das tecnologias inteligentes nos pode proporcionar a nível de otimização de custos e de aceleração dos negócios”.

Os indicadores mais recentes publicados pela Gartner e pela PwC corroboram as palavras de Carlos Jesus. A Gartner prevê que o investimento na segurança da informação e na gestão dos riscos cibernéticos cresça este ano para os 172,5 mil milhões de euros em 2022, e que até 2026 se situe nos 267,3 mil milhões de euros, atingindo uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 11%. Já a PwC inquiriu vários gestores num estudo recente concluindo que 69% tenciona aumentar os seus gastos em cibersegurança ao longo de 2022, contra 55% em 2021. E mais de 26% referiu que este aumento será de 10% ou mais.

“O aumento dos custos — explica o Country Manager da Colt Portugal — provoca um alargamento dos tempos de decisão das empresas, mas não um movimento de desinvestimento, até porque os empresários e os gestores sabem o quão crítica é a transformação digital para que possam manter e desenvolver os seus negócios, e isto inclui evidentemente a segurança das infraestruturas, das redes, das ferramentas, dos processos, dos dados, dos dispositivos, dos utilizadores…. Um dos principais pilares da transformação digital é a cibersegurança, sem ela não há transformação digital”.

Não é diferente a perspectiva de Carlos Vidinha, Principal Solutions Director e Head of Cloud Infrastructure Services da Capgemini Portugal. Ao Jornal Económico, este especialista começa por lembrar que muitos analistas de referência mundial convergem na estimativa de que a despesa em cibersegurança à escala global atinja este ano um valor na ordem dos 150 mil milhões de dólares, com uma tendência de crescimento de dois dígitos num horizonte a cinco anos, bem longe dos singelos cinco mil milhões de dólares que foram contabilizados em 2004. “O racional por detrás desta evolução meteórica — explica — tem as suas raízes na crescente vaga de digitalização da nossa sociedade, que se reflete transversalmente nos comportamentos das pessoas, nas operações das organizações e nos processos de negócio. Consequentemente, evolução semelhante regista a superfície de exposição ao risco cibernético, com volumes de dados cada vez maiores, a velocidades crescentes e de maior diversidade a fluírem em formato digital, garantindo o pulsar crítico da sociedade e da economia”.

O reflexo deste fenómeno, adianta o responsável da Capgemini Portugal, tem-se vindo a materializar “de forma proporcional” na proliferação das ameaças em número, frequência e sofisticação, mobilizando recursos que constituem um fator de risco incontornável para organizações e indivíduos, pondo em causa a sua própria existência. Nas suas palavras, “quaisquer cenários futuros, onde são incontornáveis desenvolvimentos em áreas tais como a proliferação do IoT, 5G, Analytics, AI, reforçam a criticidade do risco associado à segurança de informação”.

Perante este contexto e independentemente da conjuntura macroeconómica e geopolítica, é incontornável a necessidade do reforço dos investimentos em cibersegurança. Segundo Carlos Vidinha, este investimento tem de ser acompanhado e entendido numa ótica de “evolução de maturidade, suportada em vetores tais como o crescimento da automatização e aplicação de machine learning aos processos de cibersegurança, adoção generalizada dos princípios de zero trust architecture, ou da sofisticação das técnicas de avaliação monetizada do risco cibernético incorrido por forma a suportar as tomadas de decisão de investimento nas respetivas medidas de mitigação.”

Investimento sim, não custo

A Warpcom anunciou, em junho, o reforço do investimento no sector dos Contact Centers através da disponibilização de uma oferta tecnológica completa que maximiza as sinergias estratégicas com a Evolutio, que lidera o mercado espanhol nesta área. Bruno Gonçalves,  Cybersecurity Business Unit Manager da Warpcom, diz ao Jornal Económico que a empresa continua a fazer um trabalho de sensibilização sobre a importância da cibersegurança nas organizações. “Agora mais do que nunca, a cibersegurança deve ser vista como um investimento e não um custo. E este investimento deve ser encarado como algo vital para a sua sobrevivência no contexto atual”, afirma. “Continuamos ativamente a procurar as soluções mais adaptadas às diferentes necessidades das organizações e a posicionar-nos junto dos nossos clientes como parceiros de confiança, empenhados em entender o seu negócio e os seus desafios no contexto atual”. A Warpcom tem uma ampla rede de parceiros de software e hardware de primeira linha, conta com escritórios em Lisboa, Porto, Faro, Funchal e Madrid e uma equipa com mais de 130 pessoas.

Os desafios e escolhos crescem à medida que aumenta a lupa da análise. Bruno Gonçalves lembra a pandemia, a situação de guerra na Europa, a instabilidade económica generalizada no mundo, a crise energética e os consequentes aumentos no custo de vida no geral como “algo que todos nós – individualmente – temos sentido diariamente, e que colocam também uma pressão adicional em qualquer organização”. A generalidade das organizações, salienta, está a enfrentar uma nova realidade e a ter que procurar alternativas para, pelo menos, manterem as receitas e otimizarem os custos operacionais. “E é precisamente por causa deste contexto que investimentos contínuos na cibersegurança das organizações são, agora talvez mais do que nunca essenciais”, afirma, garantindo: “Nesta altura em que as empresas precisam de se focar para manterem as suas receitas – ou transformarem-se para as aumentar e otimizarem os seus custos operacionais – não podem correr o risco de sofrerem um incidente de segurança que comprometa as suas operações diárias, a sua marca e os seus clientes”.

Na mesma linha de análise, Vesku Turtia, Diretor Regional para Iberia da Armis, fala de empresas a cortar custos, sem beliscar o essencial. “Num mundo híbrido onde a adoção de ativos conectados é exponencial, a segurança é um dos focos para as administrações das empresas. Por essa razão — explica — o investimento em proteção tem de continuar a aumentar para integrar completamente a tecnologia e segurança”. A transformação digital, conjugada com a pandemia e a mudança para o trabalho remoto, acelerou o ritmo de ligação de novos ativos às redes empresariais. Ativos que podem ser geridos, como portáteis, smartphones, smartwatches, ou não-geridos, como dispositivos de Internet of Things industrial (IIoT) e tecnologia operacional (OT). O gestor explica que no mundo atual, temos de ter em conta os dois tipos. Quer se trate de robôs em armazéns, máquinas de ressonância magnética nos hospitais ou terminais de pontos de venda no comércio, tudo está ligado à rede da empresa e, por isso, possivelmente exposto a cibercriminosos.

Até 2025, espera-se que existam aproximadamente 27 mil milhões de dispositivos Internet of Things (IoT) ligados, adianta Vesku Turtia. “Estes dispositivos ajudam as empresas a melhorar a eficiência, aumentar a satisfação dos clientes e mais, para o número crescente de ativos que são utilizados numa organização também aumenta inevitavelmente a superfície de ataque dos cibercriminosos”. Principal consequência? “Se uma empresa não está equipada para identificar e quantificar o risco e ver onde se encontram as lacunas do seu ambiente, é apenas uma questão de tempo até que ocorra uma violação”, conclui. E isso é algo que ninguém que esteja no negócio quer.

Artigo publicado no anuário “Quem é Quem nas TIC em Portugal 2022“, publicado com o Jornal Económico de 30-09-2022

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