Enquanto o pau vai e vem, todos ficamos mais pobres

Enquanto o pau vai e vem, os governos aproveitam a subida da inflação para reduzirem as dívidas públicas, com política de austeridade encapotadas.

As taxas de juro continuam a subir a um ritmo a que não estávamos habituados e muitas famílias portuguesas começam a sentir sérias dificuldades em acompanhar o aumento das suas prestações. Uma década de juros historicamente baixos ou mesmo negativos criou a perceção quase generalizada de que aquilo seria o normal, quando o normal é o dinheiro ter um custo efetivo, em vez de ser oferecido de bandeja a quem o pede emprestado.

Esta normalização da política monetária seria inevitável e esperada, mas pensava-se que seria um processo gradual a ocorrer ao longo de vários anos. Porém, a pandemia de Covid-19 e a invasão russa da Ucrânia trocaram as voltas a estas previsões, gerando uma onda inflacionista – que muito deve à especulação em alguns bens e matérias-primas essenciais – que os bancos centrais tentam agora travar com o clássico remédio da subida das taxas de juro, correndo o risco de provocar uma recessão e levar muitas famílias e empresas à bancarrota por deixarem de ser capazes de pagar os seus empréstimos.

Porém, o pau vai e vem e os governos aproveitam – enquanto podem – a inflação em máximos de 30 anos para reduzirem as dívidas públicas com políticas de austeridade encapotadas, não atualizando escalões de IRS, salários e pensões à taxa de inflação. O produto cresce à boleia da inflação, ao passo que o valor nominal da dívida mantém-se ou até aumenta, mas ainda assim desce em termos relativos. A receita fiscal dispara por via da cobrança de IVA, os défices públicos ficam sob controlo sem necessidade de fazer cortes dolorosos e até a Segurança Social se pode tornar mais sustentável de um dia para o outro.

Em contrapartida, as medidas avulsas que os governos aplicam não compensam o efeito corrosivo que a inflação tem no poder de compra das famílias. Para os governos europeus, incluindo o português, tudo isto dá muito jeito, porque conseguem aplicar políticas de austeridade (via inflação) sem pagar o preço político que este tipo de medidas normalmente acarretam. É uma situação que nos deixa a todos mais pobres, ainda que nos tentem iludir com aparentes benesses que não passam de pensos rápidos.

A boa notícia é que já se perspetiva uma estabilização da escalada da inflação e dos juros nos Estados Unidos. Atingido o pico, será de esperar que gradualmente a Reserva Federal, o BCE e outros bancos centrais vão ajustando os juros à medida que, no médio prazo, a inflação caia para o patamar dos 2% a 3%. Isto partindo do princípio de que a eternização da guerra na Ucrânia, a política de “Covid Zero” na China e outros fatores que explicam a recente subida da inflação não vão continuar a alimentar a fogueira, com o mundo a ficar atolado numa armadilha de inflação alta e recessão.

Esperemos, pois, que a provável recessão seja breve, tendo o mérito de baixar a inflação para níveis aceitáveis, ao invés de estarmos perante uma tempestade perfeita que inclua falências em cascata de países, bancos e grandes empresas excessivamente endividadas, como profetizou recentemente Nouriel Roubini. Que, convenhamos, não sendo propriamente conhecido pelo otimismo, já por uma vez ou outra acertou nas previsões.

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