Entre a frigideira e o lume

É indispensável contrariar a recessão económica, mas tal não pode ser feito à custa de meter na gaveta o combate contra as alterações climáticas. São dois males maiores.

Nove em dez portugueses acreditam que haverá um grande aumento de preços em Portugal, de acordo com uma sondagem divulgada esta semana para o CM e CMTV. Curiosamente, quando inquiridos sobre se os erros cometidos pelo Governo ao longo de dois anos também serão causa de uma “eventual crise económica”, 62,5% dos mesmos portugueses que deram recentemente a maioria absoluta ao Partido Socialista consideram que sim.

Deixemos, no entanto, a análise política sobre o segundo facto para outra ocasião e concentremo-nos no primeiro, pela positiva. A sondagem evidencia existir uma consciência praticamente unânime entre os cidadãos sobre o cenário que nos espera e isso significa – desejavelmente – que os comportamentos futuros ao nível do consumo e do investimento privado serão marcados pela racionalidade e pela cautela.

Nesse mesmo sentido alertei aqui diversas vezes, mesmo antes da invasão russa sobre a Ucrânia, quando antecipei que a inflação estava para durar face ao otimismo revelado pelo BCE e outras instâncias e também sobre a mudança que inevitavelmente aí virá sobre as taxas de juro, que era indispensável “cautela e caldos de galinha”.

Agora, soma-se aos fatores anteriores a disrupção na cadeia global de abastecimentos provocada pela guerra e a prolongada indefinição dos cenários decorrentes do conflito. Como comunicou esta semana aos seus acionistas Larry Fink, CEO da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo: “A invasão russa da Ucrânia pôs fim à globalização que vivemos ao longo das últimas três décadas” e isto significa, ainda nas suas palavras, que “uma reorientação em grande escala das cadeias de abastecimento será inerentemente inflacionária”.

Face a tudo isto, é importante deixar um alerta. O de que as decisões políticas e económicas para contrariar os fatores que poderão causar uma recessão global não podem escamotear ou postergar as decisões que foram tomadas de combate às alterações climáticas. Como exemplo, no mesmo dia em que foram formalmente anunciadas as sanções contra a Rússia, a União Europeia anunciou a prossecução de diversas iniciativas com impacto na economia ao nível das atividades de negócio.

O mesmo, embora para já de forma mais lata, sucedeu com as Nações Unidas, que em Nairobi traçaram as linhas mestras daquele que foi denominado “o maior acordo ambiental desde Paris”, ao adotarem uma resolução que visa criar um tratado vinculativo de combate à poluição pelo plástico, que deverá ser finalizado até 2024.

Governantes e líderes de empresas estão agora confrontados com uma batalha em duas frentes. É indispensável contrariar a recessão económica, mas tal não pode ser feito à custa de meter na gaveta o combate contra as alterações climáticas. São dois males maiores. E poucas vezes na História o desafio foi de uma tão grande dimensão. Por isso mesmo, não é possível prescindir do modelo geopolítico e geoeconómico global, tal como o entendemos, enquanto não existir uma visão comum sobre o caminho a seguir, entre a frigideira e o lume.

 

 

Dois pequenos mas sólidos ensaios foram agora editados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos; uma versão revista e atualizada de “Economia Portuguesa – As Últimas Décadas” de Luciano Amaral e “Economia Azul” de Duarte Bué Alves. Ambos dão interessantes contributos através de dados, factos e casos exemplares, para entendermos as ameaças e oportunidades que temos pela frente. Assim haja quem os saiba ler.

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