Escolas estão a “repensar a sua proposta de valor e a adaptar conteúdos”

O digital, a sustentabilidade e os ‘soft skills’ imperam na nova agenda das escolas de gestão, que respondem a “uma necessidade de ampliação de competências”. As formações serão mais frequentes e abrangentes ao nível das competências, dizem as escolas.

As mudanças no ensino e no trabalho registadas nos últimos dois anos multiplicam-se, entre as que foram aceleradas pela pandemia de Covid-19 e as que surgem já só nesse contexto. Nas escolas de gestão, acelera-se o passo para agarrar todas as tendências de forma uniforme e responder às exigências, tanto de alunos como de organizações, que se prendem com uma urgência em renovar competências face a um mundo invariavelmente alterado.

“Há de facto muitas mudanças. Vivemos tempos muito conturbados”, alerta a Diretora dos Programas de Inscrição Aberta do ISEG Executive Education, Catarina Paiva. A instituição tem alargado a oferta formativa para chegar às várias áreas de elevada procurada, frequentemente em sintonia com as próprias tendências que Catarina Paiva identifica, e que vão além da sala de aula apesar de “impactarem e muito a área da formação”. A pandemia permanece o ponto de partida para muitas das transformações que se deram nas escolas de gestão portuguesas. A radical adpatação do ensino à distância, com diferentes modalidades, colocou logo em 2020 as instituições de Ensino Superior na frente da jornada digital. Não há volta a dar, admitem as responsáveis ouvidas pelo Jornal Económico na JE Talks, mas o online não mata a fome, nem resolve todos os problemas.

“A pandemia impactou os processos de digitalização das empresas e ainda continua”, diz Catarina Paiva recordando que os últimos dois anos também alteraram “os hábitos de comportamento dos consumidores”, além de terem acelerado o ecommerce.

“Estas mudanças tiveram impacto nos modelos de negócio das empresas e os gestores têm de pensar nas estratégias”, diz até porque “isso reflete-se nas competências de que os gestores precisam para dar resposta”.

Competências com prazo de validade
“Estamos a ser invadidos por uma necessidade de ampliação de competências”, adianta a Executive Education Director da NOVA SBE, Marta Pimentel, que recorda ainda um passado onde “se podia fazer carreira com meia dúzia de competências”. Já não é o caso, diz.

“Agora somos confrontados com competências com um prazo de validade”, refere. Falamos de uma shelf-life de “três a cinco anos” e Marta Pimentel admite até que há já quem diga que os próprios diplomas e certificados terão um prazo de validade. Mas não há que recear, diz, até porque todas as transformações que se assinalam na formação executiva estavam já anunciadas.

“O que acontece é que houve uma aceleração enorme – agora é um facto”, garante. “Executamos o digital e isso obriga a uma diversidade de competências”. Para Catarina Paiva, muita desta renovada demanda começou por ser uma “imposição legal”, nomeadamente quando falamos dos temas de sustentabilidade: as metas comunitárias criaram uma procura por formação específica. Contudo, neste momento, “é uma imposição do mercado”, garante.

“As empresas e os executivos têm de incorporar nas suas estratégias todos os temas”, refere a responsável do ISEG Executive Education. “Os gestores veem-se confrontados com este binómio relacionado com a sustentabilidade: o profit e o purpose [lucro e propósito]”, ou seja, coloca-se a questão: “Como é que se mantêm e aumentam os lucros da organização mantendo isso alinhado com os temas da sustentabilidade?” – Catarina Paiva não esconde que se trata de um “enorme desafio”.

Para Marta Pimentel, há que ganhar um hábito com esta aquisição urgente de novas competências. “Temos que ganhar fluência, um pouco como as línguas”, diz. “Somos seres que não gostam de mudança, e esta aceleração coloca necessidades”, e cabe às escolas de gestão identificar quais.

“Há uma escassez” de profissionais e valências, diz Catarina Paiva, que pega no tema da Great Resignation para ilustrar alguns dos desafios que hoje chegam às escolas como o ISEG ou a NOVA SBE.

“O Great Resignation veio trazer muitos desafios, também para as escolas de negócios, porque este fenómeno conduziu a que cerca de 25% da população ativa norte-americana tenha vontade de deixar as suas empresas”, explica. Começou-se a “repensar” vidas, hábitos, mas sobretudo vocações profissionais. “Esse processo não teve a mesma intensidade na Europa e em Portugal”, admite Paiva, “mas está a trazer muitos desafios na questão da atração e da retenção de talento”.

Gestores precisam de atualização constante
Em Portugal, a representante do ISEG admite que os gestores “precisam de trabalhar mais os temas do employer branding, de HR analytics, definir uma melhor employee experience, para permitir que esses talentos sejam retidos”. Todos estes novos modelos de trabalho a que temos assistido nos meses recentes, diz, levaram as próprias lideranças a ter “necessidade de atualizar as suas competências”.

Diz ainda que são precisas lideranças “menos hierarquizadas e muito mais colaborativas e mais empáticas”, até porque como refere, nunca se assistiu a uma discussão tão acesa em torno das questões de saúde mental.

“São novas competências que as empresas precisam de imputar aos seus colaboradores”, garante.

Colaboradores que são eles próprios tão influentes na organização como os consumidores. “Têm muito mais voz”, diz Marta Pimentel. “Há aqui um papel super importante quando se posicionam – vimos o que aconteceu com a guerra na Ucrânia. Esta pressão sobre governos e organizações faz com que o tema se torne cada vez mais emergente”, garante, alertando ainda que aquilo que identifica uma organização é o seu “conjunto de crenças e raízes”. São essas referências e pilares que, na visão de Marta Pimentel, precisam de “ser mantidos” mas que exigem “camadas de atualização”. Para a responsável da NOVA SBE, a dinâmica atual “cria desafios às organizações e obriga-as a repensar as suas matrizes de trabalho e liderança”.

“No futuro seremos serial masters”
A solução parece passar, segundo Marta Pimentel, pela lógica do life-long-learning, uma trajetória de ensino que se pontua ao longo de toda a vida. “Nestas jornadas temos programas ligados ao upskilling e ao reskilling”, explica. No primeiro, lida-se com a necessidade de atualizar conceitos e conhecimentos, com alguns programas intensivos e curtos. É no segundo que se inserem as pós-graduações.

Catarina Paiva considera que as mesmas “continuam a ser programas muito estruturantes do ponto de vista da formação, mas cada vez mais numa ótica profissionalizante, não tanto na vertente académica do passado”. Agora, assinalam-se metodologias “mais ativas”, que procuram preparar os gestores para, no seu contexto organizacional, “aplicarem as frameworks e as ferramentas que são necessárias”.

Marta Pimentel explica que se pretende que uma pós-graduação tenha “muito esta dinâmica de teoria e prática – eu aprendo, implemento, aprendo, implemento. A competência é conhecimento em ação”.

Quando questionada se as pós-graduações são os novos mestrados, rejeita a ideia: são, sim, a base.“É a primeira etapa de um mestrado executivo. Não é o novo mestrado, é a base”, sublinha. Quem procura uma pós-graduação pode, nalguns casos, prosseguir com esses créditos para um mestrado e, na NOVA SBE pelo menos, Pimentel refere que se está a trabalhar um conceito: serial master. “Nós no futuro seremos serial masters: hoje faço um mestrado, daqui a dois, três anos, faço outro, e depois outro”, enumera Marta Pimentel.

Com a crise pandémica quase ultrapassada e as restrições físicas, na grande maioria, levantadas, um certo ritmo regressa às escolas de gestão. Ainda há heranças pandémicas e a digitalização do ensino é uma delas. Permitiu a abertura dos programas a um corpo de alunos global e Paiva admite que esse processo de internacionalização das escolas “teve que ser repensado em função destas barreiras que deixaram de existir”.

Por sua vez, Marta Pimentel refere que na NOVA SBE, 70% dos alunos de mestrados são estrangeiros. No campus de Carcavelos somam-se já 83 nacionalidades, só este ano. “Esta tendência da globalização veio para ficar e isso cria oportunidades muito grandes do ponto de vista do mercado”, reconhece. Esta exposição global do ensino superior português aumenta possibilidades, de acordo com Marta Pimentel, até porque diz que o mundo vai, lentamente, voltando a priveligiar o presencial. “O palco internacional voltou e esta dimensão online… Há uma certa overdose, uma zoom fadigue”, reconhece. “De facto, tem muitas vantages, nalguns casos, e sem dúvida esse contexto veio para ficar”.

Essa abertura ao mundo, bem como a outros “providers de formação”, garante Catarina Paiva, “significa que as próprias escolas de negócio tiveram que repensar a sua proposta de valor e começar a adaptar os seus conteúdos e metodologias para um formato híbrido com novas pedagogias de active learning”.

Para 2022, e até 2023, há desafios a assinalar, mencionam ambas. Os principais prendem-se com a globalização do talento, esse esbatimanto de barreiras digitais e com a dificuldade em retê-lo.

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