Esgotámos as redes sociais ou elas esgotaram-nos a nós?

Estaremos a entrar numa nova era em que, finalmente, estamos mais conscientes das experiências sociais online que pretendemos ter, sem nos tornarmos, nós próprios, numa experiência social?

No universo das redes sociais, tem sido impossível não seguir a telenovela da compra do Twitter por Elon Musk, o bilionário da Tesla e SpaceX. O início tem sido imensamente conturbado, e muitos já se aperceberam do ego desmesurado do “Chief Twit” que não aceita ser parodiado, mostrando assim que muitas das suas noções de rede social estão desajustadas da realidade.

A sua posição sobre total “liberdade de expressão” assustou investidores preocupados (e bem) com a possibilidade de a plataforma se tornar um palco descontrolado para grupos que propagam discursos de ódio, para mais quando esta plataforma já se tornou uma ferramenta indispensável para políticos e jornalistas.

Esta aquisição parece fazer parte de um padrão recente de esgotamento das redes sociais. Após o boom inacreditável da última década, que levou à alteração da forma como interagimos, criamos ligações e obtemos informação, algumas das atuais redes sociais mais populares parecem ter cansado os seus utilizadores, que já não sentem receber o mesmo tipo de retribuição.

Verdade seja dita que não têm sido usadas apenas para entretenimento. Ajudam em revoluções, a prevenir ou a recuperar de desastres e a disseminar informação crucial. No entanto, levámos algum tempo a acordar para os perigos da manipulação constante, que influencia os nossos estados emocionais e nos deixa mais vulneráveis face a grupos organizados de propaganda. Esquecemo-nos, muito convenientemente, que por detrás destas redes existem empresas com conselhos de administração que, todos os dias, procuram desenhar soluções para obter lucros a partir dos nossos interesses e dados pessoais.

O Facebook foi o primeiro a implodir com denúncias de quebras de privacidade que causaram enormes danos à credibilidade da plataforma. Hoje, o Facebook perdeu parte da faixa etária jovem para aplicações concorrentes como o TikTok, e mesmo a última tentativa do Facebook em renovar o Instagram forçou a empresa a recuar nas novas alterações.

Zuckerberg mudou o nome do Facebook para Meta e tem investido milhares de milhões de dólares na criação do metaverso (realidade virtual), que só me recorda o livro “Ready Player One” de Ernest Cline, no qual a maioria da população se refugia em realidades virtuais utópicas para escapar a um mundo pós-apocalíptico.

Aparentemente, Zuckerberg esquece-se que os governos, entretanto, aprenderam lições sobre privacidade, e convém não esquecer que o software e hardware necessários para o metaverso colocam sérios obstáculos a uma adesão em massa. Sem surpresas, a empresa anunciou recentemente despedimentos em massa.

O TikTok tem sido, de longe, a rede mais popular entre a Geração Z. No entanto, é uma aplicação criada por uma empresa chinesa que tem sido alvo de denúncias há vários anos pelo facto dos dados dos utilizadores poderem estar a ser partilhados e usados pelo regime chinês.

Estaremos a entrar numa nova era em que, finalmente, estamos mais conscientes das experiências sociais online que pretendemos ter, sem nos tornarmos, nós próprios, numa experiência social? A rede social Mastodon, que já existe desde 2016 com base em software livre, pretende criar comunidades mais saudáveis sem funcionalidades que permitam ambientes tóxicos, mas ainda resta saber como irá lidar com o êxodo do Twitter em grandes números.

É muito natural que surjam outras aplicações, contudo a escolha agora tem de ser muito mais consciente. Primeiro porque já estamos cientes dos perigos e, segundo, porque nos cabe a nós, e apenas nós, decidir se queremos ou não ser as cobaias de outros.

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