Está a ficar muito quente?

Apesar de parecer que vou falar sobre o programa de governo, apresentado esta semana no Parlamento pelo PS, a verdade é que escrevo sobre um assunto que tem passado em terceiro ou quarto plano na cobertura noticiosa em Portugal. Refiro-me à Cimeira do Clima em Paris. Uma questão que diz respeito a todos nós.

Apesar de parecer que vou falar sobre o programa de governo, apresentado esta semana no Parlamento pelo PS, a verdade é que escrevo sobre um assunto que tem passado em terceiro ou quarto plano na cobertura noticiosa em Portugal. Refiro-me à Cimeira do Clima em Paris. Uma questão que diz respeito a todos nós.

Antony and the Johnsons apresentaram uma música de protesto, intitulada “4 Degrees” que espelha bem a problemática que está a ser discutida. Um aquecimento global na ordem dos 4o, o que provocará a alteração dos equilíbrios ecossistémicos e uma alteração considerável do mundo tal como o conhecemos. Apesar de parecer que são só 4o, este aumento de temperatura tem um significado particular.

Estão reunidos 200 governos representando duas centenas de países em Paris. Partindo do Protocolo de Quioto, pretende-se chegar a um acordo mais ou menos vinculativo (porque parece incluir uma cláusula de opção) que deverá guiar os Estados na sua ação presente e futura. Os prazos são curtos para tarefas gigantescas como esta de gerar o consenso entre tantos países com graus de desenvolvimento e de condições de vida tão diversas.

Se do lado de dentro estão os Chefes de Estado e de Governo e os ministros do ambiente, do lado de fora estão os ativistas que, impedidos de se manifestarem, lá deixaram os seus sapatos a mostrar que estão presentes, mesmo que de forma simbólica. Tocando na questão simbólica: um congénere dos Chefes de Estado, o Papa Francisco, também colocou os seus sapatos nesta marcha invisível.

Como se justifica esta atitude e esta demonstração silenciosa e quase invisível pelo clima?

Creio que pela razão mais óbvia: a mudança climática é um problema de todos nós. As suas consequências poderão ser partilhadas de forma desigual, mas nenhuma latitude ou longitude ficará imune, portanto, todas as populações serão atingidas. E, logo, as empresas. O modelo de exploração de recursos que tem sido seguido esgotará rapidamente o bem mais precioso que possuímos: a Terra.

Cada um de nós pode mudar hábitos: optar por caminhar, andar de bicicleta ou deslocar-se em transportes públicos em vez de usar veículos próprios. Reciclar em vez de comprar novo. Separar o lixo e levá–lo à reciclagem. Mas não chega. Há que ir mais longe. Envolver as empresas e perceber que a deslocalização industrial sem preocupações ambientais gerou nos países em desenvolvimento um fluxo de poluição para o qual não estavam minimamente preparados, sem que a distribuição de riqueza e bem-estar fosse assegurada.

Esta cimeira é um evento de todos nós. É altura de percebermos aquilo que realmente pretendemos e encontrar estratégias concertadas que permitam continuar a partilhar este planeta maravilhoso. Para tal, é necessária uma mudança de mentalidade. As notícias em vez de relatarem a água em Marte terão de passar a falar da felicidade que é termos, apesar de todos os atentados contra a Natureza, água fresca para nosso consumo.

Sejamos exigentes e não deixemos que as alterações climáticas permaneçam como uma questão opcional.

Cátia Miriam Costa,
Investigadora do Centro de Estudos Internacionais, ISCTE – IUL

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