Etiópia: Rebeldes da TPLF anunciam retirada militar

Um passo importante para o cessar-fogo, mas em que o governo etíope não acredita: a estratégia dos rebeldes surge na tentativa de esconder o colapso militar. Ainda não há negociações à vista.

As forças rebeldes de Tigray que lutam contra as tropas do governo central etíope dizem que retiraram das regiões vizinhas no norte do país, no que os analistas consideram ser um gesto de boa vontade que pode abrir portas a um cessar-fogo após 13 meses de guerra brutal.

“Confiamos que o nosso ato de retirada será uma abertura decisiva para a paz”, escreveu Debretsion Gebremichael, chefe da Frente de Libertação do Povo Tigray (TPLF), o partido político que controla a maior parte da região norte de Tigray, numa carta enviada às Nações Unidas esta segunda-feira e citada pela imprensa internacional.

A carta pedia uma zona de exclusão aérea para aviões hostis sobre Tigray, a imposição de um embargo à venda de armas à Etiópia e à sua aliada Eritreia, e um mecanismo da ONU para verificar se as forças armadas externas estão a retirar de Tigray.

Getachew Reda, porta-voz da TPLF, disse à agência de notícias AFP que as tropas de Tigray estão a sair das regiões de Amhara e Afar. “Decidimos retirar dessas áreas para o Tigray. Queremos abrir a porta à ajuda humanitária”, disse. A decisão foi tomada há algumas semanas, referiu ainda.

Mas a porta-voz do primeiro-ministro Abiy Ahmed, Billene Seyoum, disse que o anúncio dos rebeldes não passa de um encobrimento para os reveses militares impostos pelas tropas do país. “A TPLF sofreu grandes perdas nas últimas semanas e, portanto, está a reivindicar uma ‘retirada estratégica’ para compensar a derrota”, disse, igualmente citada pela AFP.

As palavras de Billene Seyoum apontam para que o governo não acredita na ‘bondade’ dos rebeldes, o que pode dificultar qualquer tipo de negociação entre as duas partes – que costumam apelar a um cessar-fogo perante uma derrota militar em perspetiva ou alternativamente quando já têm ganhos territoriais satisfatórios. “Ainda há bolsas na região de Amhara em que a TPLF permanece”.

A guerra, que já dura há mais de um ano na segunda, já acrescentou 60 mil refugiados – quase todos dirigindo-se para o Sudão. Milhares de civis já foram mortos e cerca de 400 mil pessoas enfrentam a fome em Tigray. Recorde-se que a ONU já acusou o governo etíope de impor um bloqueio de facto à região, impedindo a chegada de auxílio exterior à população – o que o governo nega.

Na semana passada, a ONU concordou em iniciar uma investigação independente sobre os abusos de direitos na Etiópia – algo fortemente contestado pelo governo etíope. Mediadores internacionais, incluindo a União Africana e os Estados Unidos, tentaram repetidamente negociar um cessar-fogo entre os dois lados para permitir que a ajuda entrasse em Tigray, mas ambos os lados recusaram.

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