Eu, anarquista, me confesso

Foi com Fernando Pessoa que aprendi a ser assim. Mais concretamente no verão de 1989, no areal de Vila Praia de Âncora, depois de ler o conto O Banqueiro Anarquista.

No passado dia 30 de novembro fez 80 anos que Fernando Pessoa passou a ser imortal. O amanhã que ele não sabia o que iria trazer, trouxe-nos até isto. Em 1935, quando Pessoa se despediu da vida terrena no Hospital de S. Luís dos Franceses, o ditador Salazar exercia o poder absoluto há pouco mais de três anos.

O país iria conhecer apenas aquele líder durante mais 33 anos, até 1968. Marcello Caetano ficou depois seis anos na cadeira de S. Bento e, finalmente, 40 anos após a morte do poeta da Mensagem, o amanhã trouxe a democracia que temos hoje. A mesma que agora faz também 40 anos.

O líder do Governo de Portugal não se chama António Salazar, mas sim António Costa. Goste-se ou não de Costa, é ele quem manda agora. Sou um democrata, acredito nos valores do voto e no sistema de partidos. Acho importante que os seres humanos se organizem em redor de ideias e valores. Mas, tenho de confessar algo: sou um anarquista. É verdade.

Sou um daqueles indivíduos que está contra o sistema, que quer destruir a sociedade tal como a conhecemos e mudar a vida dos seres humanos. No entanto, tomo banho regularmente, procuro ter o cabelo cuidado, visto-me de forma banal, respeito as regras da sociedade, cumpro obrigações fiscais e até tenho passe para metro e autocarro. Voto nas eleições, candidato-me por partidos devidamente inscritos no Tribunal Constitucional e dialogo à esquerda e direita. Mas, mesmo assim, assumo-me como anarquista.

Foi com Fernando Pessoa que aprendi a ser assim. Mais concretamente no verão de 1989, no areal de Vila Praia de Âncora, depois de ler o conto O Banqueiro Anarquista. Não foi propriamente uma revelação. Foi antes uma confirmação. Aquilo que Pessoa me disse naquele texto escrito em 1922 era algo que eu sentia, mas que nunca conseguira verbalizar. Lembro-me de ter fechado o livro e de exclamar: é isso mesmo! Era um anarquista e não sabia. Não tinha jeito para ser banqueiro, mas poderia ser um anarquista. E como? Ora, é precisamente esse o meu conselho: descubram isso pelos vossos meios. Leiam o conto e vão perceber.

A mensagem de Pessoa no seu O Banqueiro Anarquista é aquilo que nós precisamos nos dias de hoje para combater os maus políticos, as ditaduras, o sistema que nos asfixia, aquilo que nos controla e tira toda a poesia à vida. Não preciso de cobrir a cara com a máscara de Guy Fawkes. Não preciso de ir atirar pedras contra a Assembleia da República. Preciso é de subir as escadas do Parlamento e sentar-me lá dentro para continuar a fazer aquilo que Fernando Pessoa me disse que poderia fazer quando o li em 1989.

O banqueiro continuou a ser um anarquista, libertou-se. Agora, os outros que sigam o seu exemplo. Quanto a ti, caro Fernando, também não sei o que o amanhã vai trazer, mas vou continuar a ser fiel ao ideal anarquista. O único que, como sabes, é verdadeiramente democrático.

Por Frederico Duarte Carvalho,
Jornalista e escritor

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