EUA. Campanha eleitoral foi favorável a interesses de Trump, segundo analistas

Na véspera das eleições intercalares nos EUA, analistas portugueses reconhecem que campanha correu bem para os republicanos e favorece uma provável recandidatura presidencial de Donald Trump, com o ‘trumpismo’ a fazer “prova de vida”.

“Donald Trump vai aproveitar a mais que provável vitória dos republicanos (pelo menos na Câmara dos Representantes, nos governos e parlamentos estaduais e, possivelmente também, no Senado, embora neste caso ainda em aberto) para ganhar balanço para a já certa candidatura presidencial em 2024”, disse à Lusa Germano Silva, analista de política norte-americana há mais de duas décadas.

Para Agostinho Pereira de Miranda, advogado e conhecedor da política dos EUA, onde viveu durante quase uma década, mais do que favorecer Trump, esta campanha deu alento ao ‘trumpismo’, a corrente conservadora entre os republicanos.

“Esta campanha provou que o ‘trumpismo’ está bem vivo e que vai perdurar na política americana, com Trump ou sem ele”, disse Pereira de Miranda à Lusa, lembrando a boa prestação do governador republicano da Califórnia, Ron DeSantis, “cuja reeleição está praticamente assegurada”.

Estes dois analistas – que vão estar presentes na noite de terça-feira, na qualidade de especialistas, numa conferência sobre as eleições intercalares norte-americanas, na Culturgest, em Lisboa – concordam que os ventos políticos estão de feição para os republicanos, sobretudo para aqueles que parecem mais alinhados com a linha de Trump.

Germano Almeida explica que os poucos republicanos “clássicos” ou “moderados” que restam no partido, e que tentaram fazer frente à linha mais radical de Trump, foram colocados de lado.

“Que o diga Liz Cheney, elemento importante na comissão de investigação ao ataque ao Capitólio, em 06 de janeiro, e que era a número três dos republicanos no Congresso: foi arrasada nas primárias no Wyoming, perdendo por 37 pontos percentuais para uma candidata que venera Trump, Harriet Hageman”, argumentou Germano Almeida, autor de cinco livros sobre as presidências nos Estados Unidos.

Olhando para a campanha eleitoral que hoje termina, ambos os analistas também parecem de acordo quanto aos riscos de se repetirem episódios de contestação dos resultados eleitorais, como aqueles que foram fomentados pelo ex-Presidente Trump, quando confrontado pela vitória presidencial do democrata Joe Biden.

“Há um número muito significativo de candidatos republicanos ‘negacionistas’ (negam que Biden tenha ganhado as últimas eleições presidenciais). É quase certo que, em caso de vitória dos opositores democratas por uma margem menos folgada, alguns destes candidatos republicanos contestem o resultado”, confessou Pereira de Miranda.

Germano Almeida considera que “Donald Trump abriu a caixa de Pandora, em 2020” e lembrou que o senador republicano do Wisconsin Ron Johnson já disse que, se perder para o democrata Mandela Barnes, será por fraude eleitoral.

“Se os republicanos não conseguirem tomar o Senado – e tendo em conta as diferenças pequenas que se anteveem para as corridas na Pensilvânia, Wisconsin, Geórgia, Arizona ou New Hampshire – isso é quase inevitável”, defende este analista, argumentando que o estilo dos republicanos ‘trumpistas’ é o de “entrar no jogo democrático, mas só o aceitar se vencer”.

Germano Almeida defende que o livro de regras dos ‘trumpistas’ e ‘negacionistas’ tem três componentes que se afirmaram recentemente no ecossistema político-mediático.

“1) indústria de “fake news”, que para os aderentes a esta ala toma o lugar do ‘mainstream media’; 2) violência política (em 2015, só 10% dos americanos admitia essa ideia como legítima, hoje serão mais de 40%); 3) contestação do sistema eleitoral e futura substituição dos representantes eleitos, de forma a que este mesmo sistema possa ser controlado por quem legitima o golpe”, explicou este analista.

Sobre a campanha dos democratas, a presença em comícios do atual Presidente, Joe Biden, e do ex-Presidente Barack Obama é explicada por Pereira de Miranda como trunfos para angariação de fundos, “o combustível das campanhas eleitorais”.

Germano Almeida é mais cético relativamente à eficácia da presença de Biden, embora reconheça que Obama continua a ser “a grande estrela da campanha democrata”, onde apareceu para recordar que, quando era Presidente, sofreu uma pesada derrota nas eleições intercalares, no primeiro mandato, mas ainda assim foi reeleito dois anos depois.

“O atual momento desta administração tem feito do Presidente Biden um problema e não um trunfo eleitoral para os democratas. Isso explica a demora na entrada de Joe Biden no palco da campanha – ainda que isso, nos últimos dias, tenha aumentado de intensidade”, defendeu Almeida.

Os dois analistas reconhecem que, na campanha que agora termina, os dois partidos apareceram com agendas políticas muito diferentes, com os republicanos a puxarem pela questão da inflação, criminalidade e imigração, e os democratas a preferirem temas sociais, como o direito ao aborto ou o aumento do emprego.

“O sentimento do eleitorado parece favorecer, no global, os republicanos: apesar do desemprego historicamente baixo (3,5%) a administração Biden ainda não conseguiu gerar na população o sentimento de que o pior já passou”, defendeu Germano Almeida.

“Temas que poderiam favorecer os democratas – e onde o Presidente Biden já tem trabalho concreto para mostrar nestes quase dois anos – como o clima, as infraestruturas, recuperação pós-covid ou a ajuda às famílias e aos estudantes – não estão no topo das prioridades desta eleição”, concluiu este analista.

Para Agostinho Pereira de Miranda, a grande surpresa da campanha foi o volume de dinheiro gasto pelos dois partidos.

“De acordo com organizações cívicas que monitorizam o fenómeno, esta campanha eleitoral custará cerca de 10 mil milhões de dólares (valor idêntico em euros), um aumento de cerca de 150% relativamente às eleições intercalares de 2018”, lembrou o advogado.

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