EUA. Nova-iorquinos votam pela “mudança” e contra a criminalidade

As baixas temperaturas na manhã de hoje em Nova Iorque não intimidaram os eleitores ouvidos pela Lusa, que num estado tendencialmente Democrata disseram votar pela “mudança”, queixando-se da criminalidade, da economia e “falta de liderança” do país.

1 – Nova Iorque

Na Windsor Towers, um dos locais de votação do centro de Manhattan, a afluência às urnas este ano está a ser superior à de anos anteriores, disse à Lusa um funcionário eleitoral.

“Na abertura das urnas, pelas 06h00 da manhã (hora local, 11:00 em Lisboa), só estava uma pessoa à porta. Mas, nas horas seguintes, tivemos sempre pessoas à espera da sua vez. Está a ser uma manhã agitada”, disse o funcionário, que preferiu não se identificar.

Maura Brennan, uma nova-iorquina de 40 anos, chegou ao local de votação apressada, mas parou para dizer à Lusa que estava ali para “tentar recuperar as ruas de Nova Iorque”, agora “reféns do crime”, que não para de aumentar.

“Eu quero mudança, quero que o crime pare. Quero as nossas ruas seguras novamente. A economia também está em baixo”, disse.

Questionada se acredita que a democracia está em risco no país, conforme tem afirmado o Presidente, Joe Biden, Maura Brennan negou: “Penso que não, estamos aqui todos a votar livremente…temos esse direito”, afirmou.

Alfredo, um empreiteiro de 50 anos assumidamente Republicano, levantou-se cedo para votar porque “a mudança é urgente”.

“Queremos mudança e quem está sentado nos escritórios não muda nada. A nível nacional, precisamos de reforçar os valores constitucionais, principalmente a liberdade de expressão porque é muito reprimida pela imprensa. Nem tudo está a ser exposto ao público, apenas histórias parciais, e a imprensa fabrica muita coisa. Então, é preciso prestar muita atenção aos detalhes…senão as pessoas perdem”, argumentou.

Em Nova Iorque, um estado que tem duas vezes mais democratas do que republicanos, Kathy Hochul pode tornar-se a primeira mulher eleita governadora, cargo que ocupa desde agosto de 2021, na sequência da renúncia de Andrew Cuomo devido a uma polémica de assédio sexual.

Contudo, Kathy Hochul viu-se surpreendida por uma disputada inesperadamente acirrada contra o Republicano Lee Zeldin – aliado do ex-presidente Donald Trump.

Em Nova Iorque, já não é eleito um Republicano para um cargo estadual desde 2002.

As questões que mais preocupam o eleitorado de Nova Iorque são o aumento do crime e a crescente inflação, num mercado imobiliário que tem batido recordes e onde a média mensal dos preços dos apartamentos em Manhattan, por exemplo, atingiu os quatro mil dólares (aproximadamente o mesmo valor em euros) este ano.

Os crimes violentos no metro também têm deixado os nova-iorquianos cada vez mais em alerta, uma vez que as taxas de homicídio, violação, e assaltos nas viagens mais do que duplicaram face a 2019, segundo a imprensa local.

Face à questão do aborto, em que Nova Iorque se tornou um porto seguro para todas as mulheres que queiram interromper a gravidez no país, Kathy Hochul ganhou pontos do eleitorado ao colocar o direito ao aborto na Constituição Estadual.

Já Lee Zeldin, que votou consistentemente no Congresso para limitar os direitos ao aborto, tentou ganhar o apoio de Democratas moderados, ao prometer não mudar as leis já existentes no estado.

Alfredo disse à Lusa que cresceu como Democrata, mas há dois anos decidiu mudar para o lado Republicano, por achar que esse é o partido que mais beneficia os empresários.

“Está tudo caro, desde a comida, passando pela habitação, até ao combustível. Acho que os investimentos não são bons agora. Mesmo quando Trump estava no cargo, ganhei muito dinheiro. Foi uma loucura…se você ouvisse e seguisse o que Trump disse e investisse com base no que ele falou, você ganharia dinheiro. Com Biden não há direção. Você não sabe para onde ir. Não há direção. Não há liderança”, observou.

Em relação ao crime, afirma, a situação é de descontrolo, e o mandato da polícia deve ser reforçado.

“Os polícias deveriam ter permissão para fazer o seu trabalho e acabar com essa grande teoria do racismo da qual o atual Governo tanto fala. Isso é tudo uma parvoíce.. Sempre houve racismo, mas agora tentam fazer parecer que os conservadores são os racistas. Isso não é verdade, porque tenho muitos amigos conservadores e democratas”, acrescentou, defendendo ainda o acesso às armas no país.

Já Remmy, um designer de interiores de 43 anos, defendeu que as eleições de hoje são “muito importantes”, porque o futuro do país nos próximos dois anos dependerá dos seus resultados.

“Se não resolvermos as coisas neste momento, a médio prazo teremos problemas. Precisamos de resolver as coisas. Não concordo com a teoria de que a democracia está em perigo. Nada está em perigo. As coisas sobem e descem o tempo todo. Os preços sobem e descem. A recessão pode vir, pode não vir. Nós nunca sabemos. As pessoas dizem que o fim da democracia pode chegar…veremos”, afirmou.

As eleições intercalares norte-americanas de hoje determinarão qual o partido que controlará o Congresso nos dois últimos anos do mandato do Presidente Joe Biden, estando também em jogo 36 governos estaduais e vários referendos estaduais a medidas sobre questões-chave, incluindo aborto e drogas leves.

Em disputa estarão todos os 435 lugares na Câmara dos Representantes, onde os democratas atualmente têm uma estreita maioria de cinco assentos, e ainda 35 lugares no Senado, onde os democratas têm uma maioria apenas graças ao voto de desempate da vice-presidente Kamala Harris.

As eleições podem não apenas mudar a cara do Congresso norte-americano, mas também levar ao poder governadores e autoridades locais totalmente comprometidos com as ideias de Donald Trump. Uma derrota muito pesada nestas próximas eleições pode complicar mais o cenário de um segundo mandato presidencial para Joe Biden.

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