Líderes procuram-se

Em 1989, o então chanceler alemão Helmut Kohl e o seu homólogo François Mitterrand, apresentaram-se no Parlamento Europeu para discutir os desafios da Europa após a queda do muro de Berlim. Como que em reedição deste evento histórico, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês, François Holland foram recentemente recebidos no Parlamento Europeu […]


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Em 1989, o então chanceler alemão Helmut Kohl e o seu homólogo François Mitterrand, apresentaram-se no Parlamento Europeu para discutir os desafios da Europa após a queda do muro de Berlim. Como que em reedição deste evento histórico, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês, François Holland foram recentemente recebidos no Parlamento Europeu para um debate com os eurodeputados sobre a situação atual na UE. Contudo, esta visita tem pouco em comum com a visita histórica ao Parlamento dos seus antecessores de há 26 anos.

A Europa de 1989 era uma Europa em celebração, celebração do fim da Guerra Fria e de uma nova era de liberdade e prosperidade para todos os europeus. Os muros caiam, abrindo alas para uma Europa cada vez mais unida. Em nove anos foram assinados quatro tratados (Maastricht em 1992, Amesterdão em 1997, Nice em 2001 e Lisboa em 2007) que criaram os alicerces políticos e legais da União Económica e Monetária e introduziram os elementos essenciais para o reforço da união política: cidadania, política comum em matéria de política externa e assuntos internos, reforma das instituições para acolher a adesão de novos países e reforço dos poderes do Parlamento Europeu.

Hoje a situação é totalmente diversa. A União Europeia está a enfrentar uma grave crise económica, política e de segurança. Os europeus lutam contra o desemprego e a pobreza, partidos extremistas estão a ganhar cada vez mais peso no panorama político europeu, cavalgando sobre o crescente descontentamento e desilusão dos cidadãos com o perpetuar da crise e das medidas de austeridade, e novas palavras como Grexit e Brexit entram no léxico europeu dando forma e expressão às crescentes ameaças de desintegração do projecto da UE.

Em paralelo, a Europa enfrenta uma inédita crise migratória e de refugiados que alterará para sempre o panorama demográfico e social no Velho Continente.  De acordo com Frontex, 500 mil pessoas, na maioria sírios, afegãos e eritreus chegaram às fronteiras externas da UE este ano. Esta situação revelou mais do que nunca as limitações da União em agir de forma coesa e eficaz para enfrentar desafios comuns. Enquanto a Alemanha afirma quase em jeito de propaganda política, que receberá 800 mil refugiados no seu território, a Hungria fecha literalmente a sua fronteira com a Sérvia e com a Croácia suspendendo de facto a livre circulação de pessoas no espaço europeu.

O Estado Islâmico tem vindo a ocupar cada vez mais território não só nos solos do Iraque e da Síria mas também na mente confusa de muitos jovens europeus. A Rússia está mais agressiva do que nunca, anexando militarmente a Crimeia e parte da Ucrânia e mais recentemente atacando alvos específicos na Síria, em violação frontal do direito internacional.

Apesar dos esforços desenvolvidos a nível europeu para enfrentar estas questões, os desenvolvimentos são lentos e limitados comparados com a dimensão dos problemas. O maior bloco económico-comercial, uma força humanitária mundial, perde-se entre um enfermo eixo franco-alemão condicionado por clivagens ideológicas e políticas, as declarações do presidente do Conselho, Sr. Tusk, e do presidente do Parlamento Europeu, Sr. Schulz, as iniciativas isoladas da Comissão do Sr. Junker e o vazio de actuação da Sra. Federica Mogherini.

Os visionários Jean Monnet e Robert Schuman também enfrentaram os efeitos devastadores da 2ª Guerra Mundial, mas aproveitaram a oportunidade que um recomeço lhes oferecia e criaram as bases de uma integração económica e politica que consolidou o frágil sistema do equilíbrio entre as potências europeias, evitando assim o eclodir de novos conflitos e guerras.

Os atuais desafios são desafios globais, muito perigosos e ameaçadores para a segurança da Europa. Só conseguiremos enfrentá-los e superá-los se estivermos unidos, se formos mais Europa e menos “cada um por si”. Esta é a convicção expressa por quase dois terços dos cidadãos da Europa, conforme evidencia a última sondagem de opinião Eurobarómetro, pedida pelo Parlamento Europeu a propósito da forma como os estados membros devem lidar com a vaga de refugiados.

Precisamos de um novo projeto político que dê de novo vida à União, mas para tal precisamos de verdadeiros líderes e estadistas, com a visão e inspiração de Monnet e  Schumann. As vagas estão abertas, para entrada imediata!

Por Evanthia Balla, 
Professora universitária

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