Ana Pina: “Evolução da tecnologia permite definir novos modelos de cuidados”

Há doenças não comunicáveis como as cardiovasculares, diabetes, cancro e pulmonares crónicas que vão beneficiar da evolução tecnológica ao nível dos novos modelos de cuidados, afirma a diretora da Digital Health na Future Healthcare, Ana Pina.

A aposta na saúde digital é uma tendência ou uma necessidade que a pandemia acentuou? Que ferramenta foi recentemente lançada pela Future Healthcare?
A aposta na saúde digital é uma tendência, que já existia antes da pandemia, mas que foi francamente acentuada nessa altura. As pessoas tinham muita dificuldade a aceder aos serviços presenciais e a possibilidade de resolver diversas situações utilizando canais digitais surgiu como a solução óbvia. Essa experiência mostrou-nos muitos dos benefícios da saúde digital, mas também as suas limitações. Na minha perspetiva os benefícios vão muito além da comodidade e da acessibilidade. A evolução da tecnologia permite-nos definir novos modelos de cuidados, sobretudo para prevenir ou abordar doenças tão impactantes como as doenças não comunicáveis, que incluem doenças cardiovasculares, diabetes, doenças pulmonares crónicas, cancro e outras. Sobretudo para estas, o modelo de cuidados que temos não é eficaz e a saúde digital pode ter um papel importante em coordenação com os cuidados presenciais.

A Future Healthcare dá acesso aos seus clientes a cuidados de saúde prestados por via digital através da sua unidade de telemedicina (Future Healthcare Virtual Clinic). Pretendemos capacitar a interação digital com dispositivos que permitam uma avaliação clínica mais ampla, de modo a sermos mais efetivos. Começámos com a prestação de vídeo-consulta de modo isolado, quando o cliente pede. Mas pretendemos disponibilizar outros modelos de cuidados e interação, que tiram partido da capacidade da saúde digital. Apesar da vídeo-consulta ter sido muito útil durante a pandemia, tem muitas limitações. Essas limitações surgem principalmente pela diminuta capacidade de realizar um exame físico da pessoa. Por isso lançámos esta solução de Observação Médica Remota (OMR), que inclui agora um dispositivo médico, devidamente credenciado e que permite a observação do ouvido (otoscopia), observação da orofaringe e pele, assim como a auscultação cardíaca, pulmonar e abdominal à distância. Acreditamos que estas soluções colocam a saúde digital noutro patamar de capacidade e qualidade de cuidados.

Como é que se pode desenvolver este sector e que benefícios pode trazer para o utilizador e para o segurador?
Muito do que se tem desenvolvido na saúde digital, e tem sido adotado de modo mais transversal, passa por utilizar a tecnologia disponível para replicar o modelo que temos nos cuidados de saúde presenciais, nomeadamente nos serviços de tele e vídeo-consultas. Este é principalmente um serviço de comodidade, mas que, sem mais apoio, com frequência se reduz apenas a uma triagem ou aconselhamento e à necessidade de uma avaliação presencial posterior. Assim, através da utilização de ferramentas que ampliam a avaliação clínica à distância, a saúde digital pode ser francamente desenvolvida, assegurando que temos capacidade de avaliar a pessoa que está do outro lado com base nas melhores práticas. Só por si, traz valor à pessoa que faz a consulta, seja porque evita deslocações e otimiza tempo, seja por que dá acesso a cuidados de saúde a pessoas que vivem em zonas mais distantes dos mesmos. As seguradoras têm disponibilizado o acesso a consultas on-line. Mas na minha perspetiva sem a possibilidade de uma avaliação clínica mais ampla, estes serviços ficam amputados na sua capacidade e, portanto, os benefícios sejam para as pessoas, sejam para as seguradoras são reduzidos a uma ínfima parte do que a saúde digital pode oferecer.

A saúde digital devidamente capacitada tem um enorme valor, e pode trazer muitos benefícios quer para os clientes quer para os seguradores. Para tal é preciso mudarmos a nossa perspetiva, mudarmos o paradigma. É preciso vermos a saúde digital, não apenas como uma solução rápida e cómoda de aconselhamento, mas como uma oportunidade de entregar cuidados de saúde com qualidade e em situações e modelos que se destacam dos cuidados de saúde presenciais, embora integrados com estes.

Concretamente falamos de que tipo de tratamentos e para que tipo de clientes?
Falamos mais de situações e de capacidade de avaliação do que de tratamentos. A avaliação física de um doente dá elementos importantes que permitem, juntamente com a entrevista do doente, colocar hipóteses de diagnóstico e então definir um plano. Por exemplo, no caso de um doente com uma dor de ouvido, a boa prática será proceder à observação do ouvido como elemento adicional à história clínica colhida durante a consulta. Num doente com uma queixa de dor de garganta ou no caso de suspeita de infeção respiratória, a garganta deve ser observada ou há a necessidade de fazer uma auscultação. Sem esta capacidade, estas situações devem ser avaliadas presencialmente. Este dispositivo não substitui ainda um exame físico completo. No entanto, permite-nos avaliar corretamente muitas situações de doentes que, com frequência, recorrem aos serviços de telemedicina.

Até onde pode ir a medicina digital em termos de solução de doenças prevalentes ou de doenças que futuras?
Acredito que na saúde digital nem o céu é o limite. Num futuro próximo a saúde digital terá um papel fundamental na prevenção e abordagem de doenças como a diabetes tipo 2, as doenças cardiovasculares, cancro e outras doenças não comunicáveis. Curiosamente estas doenças têm fatores de risco comuns, como a hipertensão, a obesidade, as gorduras ou o açúcar no sangue, que são altamente dependentes do estilo de vida. Estes fatores de risco são muito frequentes, com um número significativo de pessoas não diagnosticadas. Dizemos que estas condições são silenciosas, pois muitas vezes são apenas percebidas ou valorizadas quando surge um infarto, um AVC ou uma diabetes complicada, por exemplo. Mas acredito que a pandemia veio também mostrar que não é assim.

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