Extremismo a votos no coração da Europa

Mercados recuperaram da incerteza gerada pelo referendo italiano, mas o próximo teste à Zona Euro é já na primavera, com eleições em França. Valls e Fillon conseguem travar Le Pen?

Depois do “Brexit” e do referendo em Itália que levou à demissão do primeiro-ministro Matteo Renzi, esta semana, o projeto europeu vai agora ser posto à prova num país onde a extrema-direita tem vindo a ganhar terreno. Mas, a pouco mais de quatro meses da primeira volta das eleições presidenciais em França, uma ideia central ganha forma: as candidaturas tanto da área socialista como da direita liberal são suficientemente fortes para não darem qualquer hipótese a Marine Le Pen, candidata da extrema-direita (Frente Nacional), ir mais além que o terceiro lugar.

A votação está marcada para 23 de abril e a segunda volta, se necessária, está agendada para 7 de maio. O politólogo António Costa Pinto, em declarações ao Jornal Económico, aponta precisamente nesse sentido: “O cenário [para os socialistas] está bem melhor que até agora, mas tudo indica do que se repetirá a lógica habitual francesa: uma forte candidatura de direita moderada e uma forte candidatura socialista deverão constituir uma barreira à candidatura de Le Pen”.

As sondagens – como vem sucedendo um pouco por todo o lado – não indicam coisa nenhuma. Ou, dito de outra forma, indicam tudo: desde as que garantem a passagem certa de Marine Le Pen à segunda volta até às que juram uma vitória de François Fillon (d’ Os Republicanos, fundado por Nicolas Sarkozy) logo a 23 de abril, há para todos os gostos.

Os mais moderados, área onde Costa Pinto se inclui, têm poucas dúvidas de que o socialista Manuel Valls e o republicano François Fillon estarão no escrutínio de 7 de maio. Mas, quanto à vitória final, as coisas estão mais difíceis. Mesmo assim, o politólogo português arrisca. “Parece que os socialistas têm poucas hipóteses de ganhar” e de permanecer no Palácio do Eliseu.
Por duas razões fundamentais. Em primeiro lugar porque Valls é o herdeiro de François Hollande (foi seu primeiro-ministro), campeão de impopularidade em termos da 5.ª República francesa (inaugurada em 1958). É alias este pódio bem pouco honroso que está por detrás da desistência de Hollande em avançar com uma segunda candidatura – anunciada inesperadamente a 1 de dezembro passado, mas que teve a função primordial de tornar clara, atempadamente, a posição dos socialistas.

Contestação à esquerda
Em segundo lugar, na função de primeiro-ministro, Manuel Valls teve de gerir o dossiê das novas leis do trabalho, que mereceram o ódio de parte dos sindicatos e que nem sequer o parlamento que sustenta o Governo conseguiu aprovar. Resultado: as leis tiveram de avançar por decreto presidencial, com Hollande a assinar os papéis, enquanto na rua os incêndios, literais, lavraram durante muitos dias seguidos.

A questão é importante na circunstância de Valls chegar a uma eventual segunda volta: se assim for, é possível que a esquerda à esquerda do PS francês tenha alguma reserva em contribuir para a vitória do carrasco das leis do trabalho (que, recorde-se, são uma espécie de invenção francesa, decorrente dos Acordos Matignon, de 1936). Mesmo que, nesta matéria, François Fillon também não saia muito bem na fotografia.

Do lado republicano, as coisas também não são fáceis: o partido fundado por Sarkozy é acusado por Marine Le Pen de pactuar com os socialistas para, sempre que necessário, derrotarem a Frente Nacional – pelo que a transferência de votos da extrema-direita para a direita, da primeira para a segunda volta, não é um dado adquirido.

Europa expectante
Se a votação o confirmar, será um descanso para Bruxelas: depois do Brexit e da demissão do primeiro-ministro italiano Mateo Renzi, na sequência do referendo sobre a Constituição, a União Europeia está tudo menos interessada em ter nas mãos um governo francês liderado por uma eurocética empedernida como é Marine Le Pen.
Os empresários, como de costume, preferem esperar para ver: a Câmara de Comércio Luso Francesa não esteve disponível para fazer qualquer comentário sobre a matéria.

François Fillon
Os Republicanos

O moderado
Debutou na política em 1976, com apenas 22 anos, e nunca mais parou. Esteve nos mais diversos cargos, autárquicos e nacionais, sempre por via da UMP – o partido de direita antecessor dos atuais Republicanos. Foi sucessivamente ministro do Ensino Superior e Investigação (1993-95), da Tecnologia e Informação (1995), da Segurança Social, Solidariedade e Trabalho (2002-04) e da Educação.
A veia reformista que demonstrou ter – principalmente no Ministério da Educação, tendo, nesse papel, ascendido à condição de número dois do executivo na altura liderado por Alain Juppé, que deixou para trás nas primárias para 2017 – fez com que o antigo presidente Sarkozy o convidasse para primeiro-ministro.
Foi nessa condição, em que esteve entre maio de 2007 e maio de 2012, que foi confrontado com a evidência de que França não podia continuar o caminho, que Bruxelas considerou inviável, do descontrolo das contas públicas. Fillon foi, nesse quadro, o ‘pai’ da austeridade – que ‘atirou’ o país para a proliferação de diversos conflitos sociais, agudizou a divisão entre a esquerda e a direita, e colocou os gauleses em confronto com as instâncias europeias.
De algum modo, François Fillon é o candidato que tenta fazer a ponte entre os centristas moderados (incluindo-se neste lote os socialistas descontentes com a prestação de François Hollande) e a direita mais radicalizada – que tem vindo a crescer nas últimas décadas. É neste balanceamento que Fillon mistura uma atitude de moderação face ao trabalho (sendo bem menos liberal e bem mais conservador na compreensão das relações entre sindicatos e patronato), com posições de muita reserva face, por exemplo, aos imigrantes e à entrada ‘desregrada’ de refugiados.

Marine Le Pen
Frente Nacional

A radical
Em 1983, não tendo ainda sequer 18 anos, Marine Le Pen acompanhou o pai, Jean-Marie Le Pen (fundador da Frente Nacional) pela primeira vez numa campanha eleitoral. Achou o circo “chocante”, disse na altura, mas foi ‘inoculada’ pelo vírus: aderiu ao partido três anos depois, assumiu funções políticas pela primeira vez em 1998 e quando o pai anunciou que se retirava, não conseguiu resistir à sucessão. Foi assim que, em janeiro de 2011, e com mais de 60% dos votos dos congressistas, assumiu o lugar do pai – para, de alguma forma, reconfigurar o modelo do partido, que os franceses continuavam a olhar com reserva. Não desistiu das ideias-chave-choque do pai (oposição à imigração, diabolização do Islão, regresso da pena de morte, ódio à eurocracia), mas suavizou as posições do partido face, por exemplo, aos judeus – Le Pen pai acha as câmaras de gás de Hitler um “detalhe”. Apesar de não esconder o radicalismo, Marine conseguiu guiar a Frente Nacional em direção ao arco do poder. Como candidata presidencial às eleições de 2012, esteve bem colocada para passar à segunda volta, mas acabou por ficar em terceiro, atrás do derrotado Sarkozy e do eleito Hollande. O ‘quase-quase’ repetiu-se nas eleições regionais de 2015: a primeira volta correu bem à Frente Nacional, mas uma inesperada e bizarra desistência dos socialistas de Hollande para os republicanos de Sarkozy ou vice-versa (conforme o candidato mais bem posicionado em cada região) resultou numa pesada derrota para os frentistas no final da segunda volta. Esta prova de que os franceses continuam a ter medo de entregar o poder ao mais extremista dos partidos da direita é o fator mais difícil para a candidatura de Le Pen – que quanto mais sobe nas sondagens, mais incentiva a esquerda tradicionalmente não-votante a ir às urnas.

Manuel Valls
Partido Socialista

O herdeiro
Francês desde 1982 – nasceu em Barcelona 20 anos antes –, Valls foi o trunfo que a depauperada presidência de Hollande lançou em 2014 para a chefia do executivo. Nesse lugar, foi o responsável por um dos mais difíceis dossiês de toda a presidência de Hollande: a alteração das leis do trabalho, que trouxeram todos os sindicatos para a rua (as imagens de violência em todas as principais cidades do país abriram os telejornais europeus durante sucessivos dias) e redundaram no ódio da parte dos socialistas de esquerda. A escolha de Valls para as eleições tem, por isso, uma ideia-base: por muito que não queiram, os socialistas de esquerda acabarão por votar nele para ‘tapar’ o acesso da direita ao poder e, por outro lado, a direita moderada poderá ver no antigo primeiro-ministro um homem suficientemente liberal para não lhes ser conflituoso como uma escolha numa eventual segunda volta. A mais do que esperada desistência por parte de Hollande em candidatar-se a um segundo mandato – algo que nunca aconteceu antes e é atestatório da pouca consideração que os gauleses têm pelo seu presidente – fez Valls regressar a um lugar que já conhecia: foi candidato às primárias socialistas para as eleições de 2012, onde obteve uns tímidos 5,6%, perdendo para Hollande. Mas, na qualidade de primeiro-ministro – depois de ter sido ministro do Interior –, Manuel Valls parece ter conseguido convencer os franceses que, apesar de socialista, era o homem certo para, por um lado, cumprir as obrigações dos tratados europeus (se bem que Bruxelas nunca tenha sido conflituosa com Paris), e, por outro, não deixar que a mão invisível dos euroburocratas ‘desfigurasse’ a segunda maior economia do espaço comum (depois da saída do Reino Unido). O problema é que ainda lhe falta conhecer o candidato mais à esquerda.

Jean-Luc Mélenchon
Frente de Esquerda

O deserdado
Tal como sucedeu há cinco anos, Jean-Luc Mélenchon, ex-trotskista, ex-socialista e dirigente do Partido de Esquerda por si fundado, parece ser o homem certo para atingir o… quarto lugar na primeira volta das presidenciais. Em 2012, Mélanchon, um dos dirigentes estudantis do Maio de 68, conseguiu obter 11,1% dos votos, o que, na altura, foi considerado um sucesso assinalável. Entretanto, a esquerda francesa tentou a sua própria quadratura do círculo: a Bela Aliança Popular (BAP), lançada pelo PS francês, pretendia ser uma plataforma eleitoral, a partir da qual toda a esquerda conseguisse uma base de entendimento que tornasse a vitória face à direita moderada (os Republicanos) e à direita não-moderada (a Frente Nacional) praticamente incontestável. A ideia da BAP era a organização de primárias alargadas a todos os candidatos da esquerda e a escolha de alguém que representasse toda a ‘família’ unida. Como tantas vezes antes, essa espécie de frente popular acabou por resultar em nada. Em primeiro lugar, em abril ainda estava em aberto a hipótese de François Hollande se recandidatar. Diversas forças políticas à direita do PS assumiram as maiores reservas em confiar o seu voto a um presidente com quem os franceses nunca conseguiram identificar-se. Paulatinamente, o Partido de Esquerda, o Partido Comunista Francês, os ecologistas do EELV e o Partido Radical de Esquerda foram-se desligando do projeto da BAP, que acabaria por abortar. De qualquer modo, a esquerda à esquerda do PS francês tem pela frente dias difíceis, que repetem os de 2012: nas anteriores presidenciais, e apesar da prestação de Mélenchon, os partidos desse quadrante político somaram pouco mais de 15% dos votos. Ou seja, nem todos reunidos conseguiriam ultrapassar Marine Le Pen, que ficou em terceiro com 18%.

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