“Falta conhecer muitos dos beneficiários do saco azul do BES”

Jornalista Luís Rosa tem um novo livro sobre o caso BES, escrito com base nos interrogatórios feitos pela Justiça a Ricardo Salgado. Revela que ex-presidente do BES ligou Marcelo Rebelo de Sousa à venda do jornal Sol ao angolano Álvaro Sobrinho.

Cristina Bernardo

Quais as principais novidades do livro?
Construí a narrativa muito a partir dos interrogatórios a Ricardo Salgado. Pode-se dizer que a principal novidade é a revelação de todas as explicações que deu na Justiça. Tive acesso aos três interrogatórios – realizados no âmbito da operação Monte Branco em 2014, do inquérito BES/GES em 2015 e da Operação Marquês em 2017. A partir deles, ficamos a saber como é que Salgado olha para todas as imputações que lhe são feitas.

Assume algum tipo de culpa?
Não. Nunca assume a responsabilidade. É uma característica transversal a todos os interrogatórios e que tem marcado o seu discurso público. Responsabiliza toda e qualquer outra pessoa, desde membros das administrações, estruturas intermédias do BES e do GES, o contabilista, o operacional do saco azul. Toda a gente menos ele próprio.

No interrogatório parece admitir pelo menos que a ES Enterprises, o saco azul do grupo, não era totalmente transparente.
Ele renega os factos que o Ministério Público lhe imputa. Mas a noção de saco azul está ligada a questões que qualquer pessoa percebe. A ES Enterprises deixou de fazer parte do organograma desde 2004, é uma empresa secreta. Não tem contabilidade organizada. É financiada de forma opaca por outras empresas do grupo e através de emissão de dívida. Tem circuitos financeiros que só são conhecidos por um número muito reduzido de pessoas. E o que é que essa empresa faz com o dinheiro? Segundo a Operação Marquês, faz pagamentos a titulares de órgãos sociais de empresas participadas, como Henrique Granadeiro e Zeinal Bava. Faz pagamentos a pessoas do próprio grupo Espírito Santo. É uma das novidades do livro.

Ele assume-o nos interrogatórios?
Assume que havia pagamento organizado de salários através da ES Enterprises a um número muito alargado de altos funcionários do grupo. E foi essa a razão primeira da existência do saco azul: para pagar salários a membros da família Espírito Santo, que pertenciam aos órgãos sociais do banco e de outras empresas do grupo. A própria ES Internacional é criada nos anos 80 para pagar uma parte dos salários de administradores do BES e da Tranquilidade – segundo a explicação de Salgado, para não sobrecarregar as contas dessas empresas em Portugal. É assim que começa o saco azul, que depois começa a ser alargado a outras pessoas, a altos funcionários do BES, a administradores que não eram da família e por aí fora. Não podemos esquecer-nos que o saco azul do GES teve circuitos financeiros que somam 3,2 mil milhões de euros. É óbvio que não serviram apenas para pagar salários ou alegadas luvas. Tiveram também um papel importante no financiamento do GES.

Essa sociedade aparece ligada ao caso Sócrates. Há outros titulares de cargos públicos em investigação por alegadas luvas da empresa?
O Ministério Público tem informação sobre muitos beneficiários do saco azul do BES/GES, por isso acredito que outros ex-titulares de cargos públicos estejam nessa documentação bancária.

O livro aborda o BES Angola e a relação de Salgado com Álvaro Sobrinho. Eles foram aliados durante muito tempo e depois há um momento de viragem.
A relação entre os dois é muito interessante, quase daria para um outro livro. Sobrinho é um quadro do GES, entrou normalmente no grupo, e o primeiro cargo de relevo é o de atuário dos fundos de pensões do banco. É um cargo com poder, não era qualquer pessoa a ser escolhida. Salgado explica que tinha uma enorme consideração por Álvaro Sobrinho. Eram muito próximos. Mas há um momento de que se diz muito arrependido, hoje em dia. O BES tinha uma delegação em Luanda, cujo representante era o Dr. Carlos Silva, e quando é criado o BES Angola, Salgado escolhe Álvaro Sobrinho em detrimento de Carlos Silva. Diz que hoje se arrepende profundamente dessa escolha. Mas eram muito aliados.

Numa passagem, o livro revela que a compra do Sol acentua as divergências entre Salgado e Sobrinho. É interessante que essa venda tenha tido a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa. Foi ele que possibilitou a entrada de angolanos na comunicação social em Portugal?
É isso que Ricardo Salgado diz. Eu acho que há uma preocupação muito grande de Salgado em tentar falar do maior número possível de pessoas relevantes durante os seus interrogatórios. Embora hoje rejeite que tenha sido o Dono Disto Tudo, tenta comportar-se como tal. E em relação a Marcelo Rebelo de Sousa, temos de contextualizar que na altura era colunista do Sol, e tentou ajudar a empresa. É interessante a forma como Salgado tenta explicar a situação, com muita malícia pelo meio.

Há vários elementos de defesa que Salgado apresenta: não sabia, havia outras pessoas responsáveis e quando houve problemas eram pequenas ‘falhas’. Há alguma parte que possa parcialmente verdade? Olhando para um grupo do tamanho do GES, é possível que tenha sido uma só pessoa a comandar tudo?
Não diria que é só culpa de Ricardo Salgado, mas é principalmente dele. Escrevo sobre o GES desde 2011, e depois de tudo que li e do número significativo de pessoas com quem falei, acredito que havia uma gestão muito centralizada de Salgado. Era quem sabia mais, os outros à volta não tinham o mesmo grau de conhecimento. Concentrava a informação e o poder de decisão, e nessa medida tenho a convicção de que foi o principal responsável pelo que aconteceu.

No livro explica que faltam muitas peças deste puzzle. Quais são?
Falta saber quem são muitos dos beneficiários do saco azul do BES. Falta saber porque é que essas pessoas receberam dinheiro. Quais as situações que levaram aos pagamentos que foram feitos. Seria interessante que Salgado colaborasse na descoberta dessa verdade. Ele sabe quem recebeu mais dinheiro do saco azul.

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