Empreendedorismo digital em Angola. “Falta de acesso a divisas é o maior obstáculo”

O criador do primeiro portal de avaliações críticas de restaurantes e hotéis de Angola fala sobre o atual cenário do empreendedorismo digital no país.

Em 2013, a oferta de informação sobre onde comer, o que fazer e por onde viajar em Angola era practicamente inexistente. Foi nesse cenário que o jovem empreendedor Cláudio Costa, nascido em Luanda e formado em Inglaterra, Portugal e EUA, enxergou uma oportunidade e decidiu se arriscar no mundo digital. Idealizou o Luanda Nighlife (LNL), site baseado em apreciações críticas de restaurantes, hotéis e estabelecimentos voltados ao lazer. O projecto evoluiu para uma plataforma multicanal de “informação e opinião”, composta de site, perfis nas redes sociais, eventos e newsletter. A mais recente iniciativa da empresa é a aplicação LNL. “A app ainda não é a componente mais importante do LNL, mas tem potencial para ser”, afirma. O sócio-gerente da LNL e organizador do Angola Restaurant Week, falou ao África Capital sobre sua experiência e a economia digital em Angola.

 

Como nasceu o LNL?
O LNL nasceu da necessidade de informar o público local sobre as opções de restauração, lazer e hotelaria em Angola. Na época, o conceito de reviews, ou seja, apreciações críticas, era virtualmente desconhecido no país, enquanto que, no resto do mundo, já se usavam aplicações e websites como Yelp, OpenTable e Zagat. Vimos aí uma boa oportunidade de negócio. O LNL é uma plataforma de informação e opinião.

 

Está nos planos o pagamento de serviços pela app? Quais os próximos passos?
Sim, mas, devido a limitações de várias ordens em Angola, é um objectivo no médio prazo. A app ainda não é uma forma de rendimento para o LNL. A nossa empresa rentabiliza-se pelos eventos que organiza, como o Angola Restaurant Week, Luanda Cocktail Week, Jantares Nómadas, Prémios LNL, Angola Hotel Week e outros, em que o principal modelo é o patrocínio de empresas (bancos, seguradores, marcas de bebidas, e outras) que querem chegar ao nosso público. Outra fonte de rendimento é o sponsored content – publicidade online, nas nossas plataformas – em formatos de artigos, fotos e posts. Não acreditamos em banners, mas sim em conteúdo de qualidade, incluindo conteúdo pago, escrito na nossa linguagem. O primeiro passo foi conquistar Luanda. Depois partimos para as principais cidades angolanas, Benguela, Lobito e Lubango. No médio-longo prazo, pretendemos expandir o conceito para países como Moçambique, Namibia e São Tomé. Planeamos ainda criar uma componente de reservas, ainda pouco popular em Angola, e um sistema de lealdade e rewards.

 

Qual é o perfil do público que utiliza as ferramentas do LNL?
A maioria do nosso público tem entre 25-34 anos (young professionals), viaja pelo menos uma vez por ano (dentro ou fora do país), almoça ou janta fora com alguma frequência e é usuário regular da internet. São, na sua vasta maioria, angolanos e estrangeiros residentes em Angola. Entre os subscritores da nossa newsletter, encontram-se embaixadas, petrolíferas, bancos, seguradoras, donos e gerentes de hotéis e restaurantes, membros do governo. Quanto ao tráfego do nosso portal, 70% vêm de Angola, 9% dos Estados Unidos, 7% de Portugal e 14% do resto do mundo.

 

Quais são as maiores oportunidades em Angola na economia digital?
Existem oportunidades na prestação de serviços e em soluções que facilitam a vida do cidadão. Bons exemplos são a app Appy Saúde, por meio da qual é possível marcar consultas e pesquisar soluções relacionadas à saúde; o Tupuca, que aposta em logística e entrega todo o tipo de mercadoria, de comida a bilhetes para concertos; o Roque Online, que busca “formalizar” o mercado informal, tornando possível fazer compras nas praças informais via app; a SOBA, um mercado online para o todo tipo de coisas; e o Kubinga, o nosso Uber.

 

E os obstáculos a ultrapassar pelos empreendedores?
Existem vários. O mais grave é a falta de acesso a divisas. Isso torna muito difícil os pagamentos online em moeda estrangeira, visto que o kwanza (moeda local) é irrelevante na economia mundial. Nós pagamos servidor, Facebook ads, Google ads, Hootsuite e vários outros serviços online, com cartões de crédito pessoais em moeda estrangeira dos sócios da empresa. É uma situação grave. A burocracia continua a ser um empecilho, bem como a mentalidade de certos restaurantes e hotéis que ainda não estão na era digital. Fomos processados por um restaurante por escrever uma crítica menos boa, por exemplo.

 

Em que áreas a economia digital está mais desenvolvida?
Em comércio online e troca de serviços. A banca digital também começa a dar os seus primeiros tímidos passos.

 

Como analisa o uso de meios de pagamentos electrónicos?
Angola ainda é um bebé no que toca a pagamentos eletrônicos, devido às várias debilidades estruturais da nossa banca local. Contudo, já existem algumas soluções, como o carregamento de carteiras virtuais e os pagamentos por referência no Multicaixa. Essas soluções, infelizmente, ainda exigem a ida física ao banco ou ao Multicaixa.

 

Como poderia a infraestrutura ser aprimorada de forma a favorecer os negócios digitais?
É preciso liberalizar a economia e proporcionar acesso à moeda estrangeira, além de fazer um esforço para melhorar o posicionamento do kwanza. Precisamos também de poder fazer pagamentos online. E é preciso, sobretudo, aumentar drasticamente a penetração da internet no país e diminuir os custos desse serviço para a população.

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