Fernando Esteves: “O maior problema do jornalismo é o fosso entre jornalistas e leitores”

O jornalista Fernando Esteves criou o “Polígrafo”, o primeiro jornal português de fact-checking , e pretende fazer dele um “referencial de qualidade” que contribua para uma sociedade menos desinformada. Diz que Portugal também é permeável a fenómenos populistas e aponta Paulo Portas como a figura política que mereceria um verdadeira verificação dos factos.

No início do mês, a comunicação social ganhou um novo órgão: O “Polígrafo”, um projeto jornalístico assente no fact-checking. A ideia é de Fernando Esteves, que diz que este projeto deveria ser “dispensável” – mas não é. O Jornal Económico entrevistou o jornalista que quer criar um laço emocional entre o jornalismo e os leitores.

Como nasceu o Polígrafo?
Ainda na “Sábado” era editor da secção de Política e Internacional e, nessa qualidade, acompanhei de forma muito atenta as últimas eleições americanas, entre Donald Trump e Hillary Clinton. Nessas eleições, surgiu um fenómeno, que já existia, mas que explodiu no plano público, que foi o jornalismo de fact-checking. Donald Trump andava a fazer uma média de três ou quatro mentiras por dia, e os jornais de fact-checking explodiram completamente. Há quem diga que se o fact-checking fosse uma loja de hambúrgueres o Trump seria o néon à porta, porque foi ele que chamou a atenção para este tipo de jornalismo. Eu fiquei fascinado com este fenómeno, mas continuei com o meu trabalho na ‘Sábado’, mas cheguei a março de 2017 e pensei que estava na altura de eu próprio assumir um projeto, em nome pessoal. Tinha chegado a uma fase da minha carreira em que precisava de concretizar as minhas ideias sobre o jornalismo, a sociedade e o papel que o jornalismo deve ter. Decidi abandonar a “Sábado”, com o grau de risco que isso comporta, e tentar montar o projeto.

Porquê o fact-checking, os media em Portugal não cumpriam já esse papel?
Um jornal como o ‘Polígrafo’ devia ser dispensável, porque o fact-checking está na base daquilo que é o processo jornalístico. O que acontece é que o jornalismo tradicional tem-se esvaziado de alguma qualidade. É um projeto para os leitores e não quero que o ‘Polígrafo’ seja encarado como uma espécie de missionário da verdade, mas como referencial de qualidade e um terreno jornalístico de referência quanto às boas práticas da profissão.

Qual é o feedback dos leitores?
Um dos grandes problemas, senão mesmo o maior problema do jornalismo contemporâneo, além da escassez de meios e da precariedade, é o fosso que se criou entre os jornalistas, as redações e os leitores. Os leitores acham que os jornalistas são uma casta e que os jornais são organizações inatingíveis. Não há comunicação e as redes sociais expandiram-se de forma tão explosiva, porque é possível criar uma relação emocional. Neste momento, não é possível construir uma relação emocional com uma publicação tradicional. Esse foi outro dos motivos pelos quais decidi dedicar-me a este projeto.

Em tempo de fake news e pós-verdade, qual é o desafio do fact-checking?
A partir do momento em que nós temos uma sociedade desinformada, em que as pessoas não confiam na informação que lhes chega, as pessoas tornam-se apáticas. É a geração do Who Cares!? ;Whatever!?. Apoderou-se da sociedade uma embriaguez intelectual e uma sociedade embriagada, é uma sociedade sem capacidade de tomar boas decisões. Ao não tomar boas decisões, a sociedade fica permeável à emergência de outro tipo de soluções, que podem ser não democráticas. Isso já acontece um bocadinho: nos EUA com Trump, agora, no Brasil, com Bolsonaro, e vai acontecer seguramente noutros países da Europa, pretensamente civilizados, porque isto é um fenómeno imparável.

Portugal é permeável a esse fenómeno?
Claro que sim. Para o ano, nós vamos ter duas eleições e nas duas eleições haverá um grande esforço por parte de produtores profissionais de desinformação, no sentido de condicionar as eleições.

Quem é que lucra com as fake news?
Os inimigos da democracia, sobretudo. A desinformação é, maioritariamente, colocada a circular pelos extremos da sociedade: pela extrema-esquerda e pela extrema-direita – por movimentos totalitários.

No futuro, poderemos assistir ao surgimento de alguma figura populista?
Nós temos um epifenómeno de populismo, que é o André Ventura. É um populista em potência. Neste momento, não representa nada, em termos eleitorais, mas Donald Trump, quando apareceu também não representava nada. Trump é um produto da sociedade em que se transformou os EUA. Bolsonaro, idem. Em Portugal, julgo que ainda não temos, no horizonte, nenhum projeto minimamente consistente.

Há em Portugal figuras com um discurso anti-sistema, como Arnaldo Matos, Marinho Pinto ou José Pinto Coelho. Não poderão eles sair a ganhar neste momento?
Sim, claro. As sociedades atuais são mel para este tipo de figuras. É evidente que estão a criar-se todas as condições para que elas pululem cada vez mais. São fenómenos que têm tendência para ficar, para se fortalecer, assim saibam eles manejar de forma profissional as ferramentas da desinformação porque, hoje em dia, as eleições são muito mais do que uma guerra de ideias, são uma guerra de informação.

Desde o 25 de Abril até hoje, que figura política mereceria um verdadeiro fact-checking completo e nunca o teve?
Há vários… Paulo Portas, que admiro intelectualmente, fez muita curvas e contracurvas no seu discurso político, desde que foi jornalista. Defendeu muitas vezes uma coisa e o seu contrário. Passou de eurocético a eurocalmo e de eurocalmo a euro-otimista. A generalidade dos políticos têm problemas com a coerência, porque são muito permeáveis aos ares do tempo. Os políticos basicamente são esponjas e dizem aquilo que considerarem que é aquilo que as pessoas querem ouvir, em cada momento, em cada circunstância. Faz parte da natureza da atividade política. O que é importante é que esse fenómeno não se institucionalize. Ou seja, que não se crie a perceção pública de que os políticos são todos assim.

E qual foi, ou é, o político mais coerente, que não mereceria um fact-checking?
O político mais coerente que nós tivemos em Portugal, nos últimos 50 anos, terá sido Álvaro Cunhal. Obviamente, pensava de maneira diferente daquela que eu penso sobre o mundo e pode ser acusado de muitas coisas, mas manteve uma coerência do início ao fim. Desse ponto de vista, Jerónimo de Sousa, foi um bom seguidor dos seus preceitos. Podemos concordar, ou não, com as ideias que defendem, mas a verdade é que as defendem com coerência ao longo do tempo, sem grandes mudanças de trajetória. E isso é louvável por um motivo: a grande qualidade que um político tem é a sua previsibilidade. É o seu maior património. Os comunistas são profundamente previsíveis, é uma tradição do PCP.

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