Filipinas: derrotados insistem nos sinais de fraude eleitoral

O regresso ao poder da família Marcos faz também regressar as memórias de um regime que se impôs pela força e mostrou até onde pode chegar uma cleptocracia. No caso, e segundo contas tidas como aceitáveis, chegou aos 10 mil milhões de dólares.

Por que razão os vencidos consideram que houve fraude eleitoral nas eleições desta semana?

Porque os resultados definitivos foram conhecidos de forma muito rápida, indo contra aquilo que era a prática que o país conhecia até aqui. Leni Robredo, ativista dos direitos humanos e derrotada por Ferdinand promete não descansar enquanto não provar a fraude.

 

É uma acusação credível?

Aparentemente, não. Não só porque os processos de contagem vão sendo agilizados em todo o mundo – com um uso de tecnologias cada vez mais rápidas – mas principalmente porque a vitória de Ferdinand Marcos Jr., filho do antigo ditador com o mesmo nome, estava pré-anunciada pela maioria das sondagens.

 

Que vão as autoridades fazer?

Nada. As autoridades eleitorais já disseram publicamente que não têm qualquer razão para acreditarem numa fraude generalizada – ou mesmo não generalizada – e que, nesse contexto, os resultados são credíveis e não carecem de qualquer ação da sua parte para os certificar.

 

Haverá continuidade das práticas ‘familiares’?

Para além de ser teoricamente surpreendente que um país vote num familiar direto de um ex-ditador – mas não é caso único: no Peru, a família Fujimori tem um percurso muito semelhante – Ferdinand Jr. já disse que está interessado em governar em democracia. E, apesar de não ter nunca deixado de sublinhar ser filho de quem é, nunca contestou que o pai fosse um ditador (ao contrário do que sucede com a família Fujimori). Claro que há um processo de branqueamento das barbaridades cometidas – mas isso acontece em todos os países, e as democracias não são, neste particular, diferentes dos outros regimes políticos.

 

De que é acusado o pai Ferdinand?

Em 1965, Ferdinand Marcos ganhou as eleições presidenciais. Lançou vários projetos de infraestruturas e em pouco tempo, juntamente com a sua mulher Imelda, foi acusado de corrupção e desvio de milhões de dólares em fundos públicos. Contas tidas como aceitáveis pela comunidade internacional apontam para 10 mil milhões de dólares. Depois, veio a segunda fase do regime: com certeza para encobrir a cleptocracia para onde o país tinha resvalado, Marcos impôs a lei marcial em setembro de 1972 e nunca mais a levantou. Repressão política, censura e violações dos direitos humanos à ‘boleia’ de uma pretensa luta contra o comunismo internacional – o que era bem recebido em muitos países do Ocidente – que andaria muito ativo por aquelas bandas?

 

A ameaça comunista era verdadeira?

Depende dos pontos de vista. Para todos os efeitos, no início da década de 1970, a capacidade de influência regional do Partido Comunista da China (vizinho não muito distante das Filipinas) estava no auge. Países como o Vietname, o Laos, o Camboja e mesmo a mais improvável Indonésia sofreram essa influência, que o Ocidente quis combater. Ou, pelo menos combateu até os Estados Unidos se terem apercebido que a influência dos comunistas chineses era (ou podia ser) a chave da derrota da União Soviética. O futuro não muito distante viria dar alguma credibilidade a esta linha de pensamento – da responsabilidade do antigo secretário de Estado Henry Kissinger.

 

A democracia estabilizou o país?

Nem por isso. O regresso da democracia e das reformas governamentais iniciadas em 1986 foram prejudicadas pela dívida nacional, pela continuação de elevados índices de corrupção, por diversas tentativas de golpe de Estado e também por calamidades naturais (como a erupção do Monte Pinatubo em junho de 1991) que impediram o desenvolvimento do país. Houve períodos de maior prosperidade, como o tempo de liderança de Benigno Aquino (filho de uma ex-presidente, Corazon Aquino, a primeira depois de Ferdinand Marcos ter partido para o exílio). Mas, nos últimos anos, desde 2016, o país caiu nas mãos de um populista de direita, Rodrigo Duterte. Duterte – pai da próxima vice-presidente do país, Sara Duterte – especializou-se em encher a comunicação social de ‘soundbites’. Um deles ainda está com certeza nos ouvidos dos filipinos: acusou o presidente eleito de estar constantemente sob o efeito de cocaína – Ferdinand teve mesmo de se submeter a um controlo público para se livrar da acusação. Mais estranho ainda: Duterte foi um dos apoiantes de Ferdinand. Um país sui generis.

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