Fim da guerra contra o Daesh não acaba com tensão regional

O confronto entre o Irão e a Arábia Saudita é o que verdadeiramente marca o momento no Médio Oriente. Mas há uma terceira via a reter: a Turquia.

Praticamente fechada a questão territorial do autoproclamado Estado Islâmico (ISIS ou Daesh), o Médio Oriente está num processo de regresso a uma espécie de deja vu com o epicentro em 2012: o confronto mais ou menos declarado, mais ou menos violento, entre dois blocos – Rússia, Irão e Síria por um lado, Arábia Saudita e seus seguidores por outro. Em entrevista ao Jornal Económico, Ana Santos Pinto, docente e investigadora da Universidade Nova, afirma que a realidade que enformava o Médio Oriente até ao eclodir do conflito com o Daesh não só se não alterou, como não vai alterar-se.

Com um ponto prévio, segundo a investigadora: tudo leva a crer que a guerra contra o Daesh vai, quando muito, e ao invés de poder ser considerada acabada, mudar de cenário: “Tal como aconteceu com a Al Qaeda, também o Daesh vai evoluir para outra coisa” que não deixará de atacar os alvos que isolou como a abater. O que quer dizer, entre outras coisas, que o terrorismo – desta vez possivelmente mais cirúrgicos – não vai afastar-se nem dos alvos islâmicos nem dos ocidentais.

Neste quadro de ‘regresso a 2012’, e segundo Ana Santos Pinto, outra alteração muito improvável é da substituição de Bashar al-Assad, presidente da Síria. Por dois grandes motivos – e apesar das reticências do ocidente, mais uma vez explanadas a semana passada pela União Europeia, desta vez pela voz do presidente francês Emmanuel Macron: porque é um dos vencedores da guerra contra o Daesh e porque tanto a Rússia como o Irão querem manter no poder um perfil como o de Assad. Ou, dito de outra forma, não vale a pena estar a criar-se um novo conflito na Síria, até porque os movimentos anti-Assad foram mais ou menos dizimados na guerra contra o Daesh, não havendo nenhuma alternativa de poder com um mínimo de consistência.

A evidência do regresso da confrontação estre os dois blocos no Médio Oriente está por todo o lado. Desde logo na decisão de os Estados Unidos decidirem conferir a Jerusalém a categoria de capital política de Israel, mas também a questão do Qatar e o aumento das hostilidades no interior do Iémen.

A terceira via

Mas Ana Santos Pinto chama a atenção para a ‘terceira via’: a Turquia. Sem alinhar em absoluto, no seu entender, com nenhum dos dois blocos em confronto, a Turquia não é de todo um player a menosprezar. Até porque é por esta via que parte substancial do ocidente entra directamente na questão: “não se pode esquecer que a Turquia pertence à NATO e é, aliás, o seu maior exército”.

De algum modo, a presença da Turquia neste cenário de confrontação latente acaba por ser um benefício para o ocidente – por muito que a União Europeia se tenha esforçado por não fazer nenhum esforço para atrair os herdeiros do Império Otomano para o seu interior. Essa capacidade ficou, aliás, evidente na questão do Qatar. Ao não alinhar com a posição da Arábia Saudita, que usou um expediente despiciendo para isolar o pequeno vizinho, a Turquia – que tem no ativo acordos de cooperação com a Arábia Saudita em diversas áreas – contribuiu para, pelo menos, ‘esvaziar’ a questão, que acabou por transformar-se apenas num incómodo (mas não muito grande) para a Arábia Saudita.

Mas há uma questão em suspenso, que decorre ainda do facto de a Turquia pertencer à NATO: é que os Estados Unidos, que também pertencem àquela organização – apesar da performance de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, na última cimeira, em Bruxelas – estão declaradamente de um dos lados do problema, o da Arábia Saudita.

Não será a primeira vez que sucede, nem por certo será a última, mas a questão do Médio Oriente também tem contribuído, e muito, para o afastamento entre os Estados Unidos e os seus tradicionais parceiros europeus. Viu-se isso na referida cimeira da NATO em Bruxelas, mas principalmente na questão de Jerusalém. Nesse quadro, os Estados Unidos não conseguiram o apoio nem mesmo do Reino Unido, tradicional seguidor, por vezes demasiadamente pouco crítico, das decisões da Casa Branca.

Percebe-se: “Se seguisse a posição dos Estados Unidos, a Grã-Bretanha colocaria em causa a sua posição de mediador” numa região com a qual está histórica e profundamente envolvida.

Mas essa será por certo a parte menos controversa de todas as questões que envolvem o Médio Oriente no seu futuro imediato – que assim passa de uma situação de guerra declarada para uma situação de forte tensão com vários quadros de confrontação entre potências regionais, sem que entre uma e outra haja uma mínima janela de paz. Ou de esperança para os povos que são directamente atingidos pelos tremendos efeitos colaterais de todos estes embates.

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