Finalmente na Economia Digital

No final da década de 90 o termo Economia Digital tinha-se popularizado, mas a Internet ainda não. Apenas uma fração muito reduzida da população mundial tinha acesso à rede das redes.

Em muitos aspectos ainda não existia uma verdadeira “Economia Digital”, em larga medida, e apesar da euforia dos mercados e analistas a chamada economia tradicional não tinha sofrido qualquer impacto significativo pela distribuição via Internet.

Demorámos 20 anos a entrar nesta nova economia digital, depois do autor Don Tapscott ter introduzido o termo. Com a emergência de novos negócios possibilitados pela Internet e pelos smartphones, cujo modelo se destaca pelas empresas não serem detentoras da infraestrutura que gerem. É de assinalar que a maior companhia de táxis do mundo não detém táxis (Uber) que, o maior fornecedor de quartos para alojamentos não detém hotéis (Airbnb) que, a maior companhia de mensagens não possui nenhuma rede de comunicações (Whatsapp).

A novidade é que estas startups começaram a ameaçar os incumbentes, isto é, os detentores da infraestrutura. Estas novas organizações são, em muitos aspectos, potencialmente mais perniciosas porque aglutinam potencialmente toda a oferta disponível no mercado global. Por exemplo, a airbnb está presente em 190 países e tem mais de um milhão de quartos disponíveis, nenhuma companhia hoteleira tradicional detém uma operação parecida com esta.

Para simplificar e para não nos perderemos no modelo de negócio de cada caso, pensemos em qual é o principal ativo destas novas empresas? Milhares de Petabytes, isto é, montanhas e montanhas de dados, que são guardados em centros de dados, espalhados pelo mundo, quase sempre geograficamente longe do local onde se opera o negócio físico.

Estes servidores guardam o ativo principal destas empresas: os meta-conteúdos, ou seja, a informação relativa aos padrões de utilização dos seus clientes. Estes meta-conteúdos são para empresas como a Uber, ou a Amazon, o que lhes permite optimizar os seus algoritmos de inteligência artificial, constituindo assim um ativo formidável que lhes dá vantagens competitivas difíceis de replicar tanto pelos concorrentes tradicionais como pelos novos concorrentes, que muito dificilmente terão acesso à mesma quantidade de informação por não terem histórico de utilização.  Como regular estes mercados para que se tornem concorrenciais?  Se não o fizermos no futuro, só vai haver uma Uber, só vai haver um Facebook, só vai haver uma Amazon.

Em alguns países começamos mesmo a assistir a um verdadeiro choque económico, que resulta do “embate” destas novas realidades com a economia tradicional. Em Barcelona a Airbnb foi multada. Em Portugal, o Uber foi proibido de atuar. No Brasil, o whatsapp foi mesmo bloqueado no estado de São Paulo durante alguns dias – e o que aconteceu a seguir foi que os muitos utilizadores passaram a usar VPNs, no fundo redes privadas encriptadas para ultrapassar o bloqueio das operadoras de telecomunicações.

E não são estes negócios geradores de nova riqueza? Afinal, só na cidade de Lisboa, quantos apartamentos foram remodelados e quantas pessoas passaram a ter fontes alternativas de rendimento graças ao Airbnb? À falta de estatísticas fiáveis, arrisco a dizer que foram milhares.

Conseguir-se-á estancar a Internet? Claro que não, pelo menos nas democracias ocidentais, por isso é importante que os governos sejam pragmáticos na altura de lidar com estes modelos de negócio inovadores, nomeadamente taxando-os de forma eficaz. Só na vizinha Espanha, estudos recentes apontam para que a existência de melhor regulação no sector dos alugueres de curta duração de alojamento local permitiriam aumentar a receita do fisco espanhol em cerca de 800 milhões de euros. Fazendo uma extrapolação para o caso português este valor poderá estar na casa do 150 milhões de euros de receita não realizada.

Por isso mais do que tentar “limitar a Internet” os governos devem criar condições para que novos negócios nasçam num ambiente de justiça fiscal. Abracemos a Economia Digital porque desta vez, ela veio mesmo para ficar.

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