Finos, lavados e maus

“Mateus era um símbolo do êxito financeiro. Presidente de conselho de administração em várias empresas, diretor de um banco prestigiado (…), publicara mesmo uma obra sobre consórcios, e as suas teorias a respeito de holdings foram adotadas em época inesperada. Não se podia queixar, e o 25 de abril, que o deixara a pairar num […]

“Mateus era um símbolo do êxito financeiro. Presidente de conselho de administração em várias empresas, diretor de um banco prestigiado (…), publicara mesmo uma obra sobre consórcios, e as suas teorias a respeito de holdings foram adotadas em época inesperada. Não se podia queixar, e o 25 de abril, que o deixara a pairar num espécie de desemprego, como instrumento indisciplinado do capital, pareceu-lhe uma desavença com o regime, e não uma revolução exatamente.

O Douro fora colonizado pela nobreza (..) Ana de Cales era de facto nativa de uma dessas casas cuja sumptuosidade se degradou não se sabe se na indolência do preconceito, se na própria rusticidade das viúvas que se ligavam aos procuradores, mais depressa do que aos primos letrados (…) A honra era uma espécie de transferência do amor ambivalente e cego com que os homens se açoitam como escorpiões.

Só no grupo da Marca havia pelo menos cinco classes dominantes que não se confundiam, que tinham interesses próprios e costumes codificados. Os aristocratas que se tinham fixado na era pombalina. (…) O homem rico, mais propriamente ‘o menino de ouro’, que viera de fora (..) e que chegava a constituir um potentado, e que era o único que trazia prosperidade e o vigor do escândalo até àqueles lugares meio arruinados”.
(Agustina Bessa-Luís, “Os Meninos de Ouro”, Guimarães Editores)

Quem sobe a Park Avenue, em Nova Iorque, e chega à esquina da East 69th Street, vê um edifício de nove andares de fachada colonial. Lá dentro fica o “The Union Club”, o mais exclusivo “gentlemen only” dos EUA. Não é absolutamente necessário ter 300 anos de história de família bem documentada para ser admitido, mas convém. Cornelius Vanderbilt, seu fundador, não gostaria de ver por lá atores e costureiros. William Randolph Hearst tão pouco.
Jogam golfe no “Friar’s Hed Club”, onde a joia ronda os 300 mil dólares, e têm casa nos Hamptons, ali mesmo ao lado, onde descansam do trabalho árduo na Simpson Thacher & Bartlett – por exemplo –, a sociedade de advogados supra sumo das private equity e mergers and aquisitions (M&A), cujo lema é “obrigado pela triliónica dívida federal”… Assim, sem dó nem subterfúgios.

Andaram todos na Ivy League, as oito universidades privadas mais prestigiadas da Costa Leste do país… Harvard, Yale, Princeton ou Dartmouth conhecem-nos desde rapazes, como já conheciam os pais e os avôs deles. Outros há que frequentaram uma coisa à parte, de cognome Ivy Public, que é assim um degrau abaixo, não porque não sejam excelentes mas apenas porque… são públicas, não é adequado. E há até, para cúmulo do caricato, uma Black Ivy League, que engloba os colleges dos negros com fortuna. Mas todas mimetizam o Olimpo das “fabulous eight”.

É nestas voltas da vida e das castas modernas que os homens se degladiam e sobem – quando não descem. Uns já nascem com mama emprestada, para que a mãe não fique flácida, e mais tarde chucham brevemente os lábios das herdeiras que se lavam em leite de cabra desde que a cabra que há nelas era criança, ficando com elas para sempre, mais as herdades do dote. Outros vão das ruas para os anéis de ouro e safiras da Mafia, eternamente casados com flausinas rechonchudas e estúpidas. E no fim da lista há a rapaziada que se inscreve em partidos, em agremiações de reverência ou caridade – ou em todos ao mesmo tempo, que é mais seguro – e que mais tarde, com sorte, terão um lugar no Governo onde poderão vir a servir os aristocratas ou os bandidos, tirando daí uma percentagem.

Há um ou outro, de vez em quando, que escapa ao ferrete, ao brazão ou à tatuagem. São os “meninos de ouro”, como alguém chamou a Sá Carneiro – e Agustina não desmentiu –, que tinha ideias e amante mostrada. Ou Francisco de Mascarenhas, um “Dom” ativista de artes várias e de militância de braço esquerdo estendido a quem à sua porta batia. Ou Miguel Macedo, plebeu de Braga que não hesitou em ir–se embora, para que a honra não fosse uma espécie de amor ambivalente e cego, num saco de escorpiões.
Os outros são – maioritariamente e democraticamente, ou de forma elitista e reservada – apenas uma inconstante existência entre a Terra e o Céu: finos, lavados e maus.

 

Márcio Alves Candoso
Jornalista

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