Fitch abre a porta a novos investidores internacionais na dívida portuguesa

Apesar de o ‘upgrade’ já estar a ser incorporado pelos mercados, os analistas acreditam que a possibilidade de a dívida portuguesa ser incluída em novos índices vai alargar a base e o tipo de investimento. As empresas e, em especial, a banca vão ser também beneficiadas pela decisão da Fitch.

Reinhard Krause/Reuters

A Fitch não só tirou Portugal do nível de ‘lixo’ como é agora a agência de notação financeira, entre as quatro principais, a dar a melhor classificação à dívida pública nacional. A decisão, anunciada esta sexta-feira, de subir o rating português em dois escalões, para BBB com outlook estável, vai permitir alargar a base de investidores internacionais.

“Se há aproximadamente três meses, a classificação como investimento da dívida por parte da Standard&Poor’s fez regressar Portugal ao radar dos maiores fundos de investimento tanto particulares como soberanos, a atual situação irá aumentar tanto a visibilidade como de facto a inclusão da dívida em muitos desses mesmos fundos”, explicou José Lagarto, head of research da Orey iTrade.

Entre os principais fundos de investimento em dívida do mundo, os critérios diferem, mas a tendência é de beneficiar investimentos de baixo risco. Para isso, limitam a compra a títulos de dívida avaliados em grau de investimento pelas agências de rating.

Além da entrada nestes índices alargar o acesso a novos investidores, Lagarto refere que “o tipo de investimento feito poderá sofrer alterações substanciais, com estes novos investidores, na sua grande maioria, a planear investimentos superiores a 10 anos”, o que influencia as dinâmicas de gestão da dívida.

Juros e gestão orçamental beneficiam do upgrade

Filipe Garcia, economista e presidente da IMF – Informação de Mercados Financeiros já esperava a decisão, que avalia como positiva para a gestão orçamental do país. “A questão da estratégia orçamental é um pouco mais complexa. Uma melhoria do rating pode ajudar a dar folga por via de uma baixa adicional dos juros a pagar em 2018 (novas emissões de Obrigações do Tesouro e Bilhetes do Tesouro), mas a questão é o que se faz com essa folga”, afirmou.

Os analistas partilham da visão que o upgrade pela Fitch vai beneficiar os juros da dívida pública tanto em novas emissões como em mercado secundário. No entanto, diretor de gestão de ativos do Banco Carregosa, Filipe Silva, lembra que “a mudança já foi incorporada pelos preços do mercado”, o que se verifica pela tendência das yields da dívida portuguesa a 10 anos.

Os juros nacionais têm vindo a cair desde o início do ano, altura em que chegaram a ultrapassar os 4%. Esse valor parece já longe, sendo que esta sexta-feira as yields benchmark negociavam perto de 1,76%,  abaixo da dívida italiana a 1,80%, pela primeira vez desde a intervenção da troika em Portugal.

Ainda assim, Lagarto acrescentou que “numa altura em que o Banco Central Europeu (BCE) começa a restringir a política monetária, preparando mesmo subidas nas taxas de juro, este aumento de confiança na dívida poderá permitir absorver se não a totalidade, pelo menos parte desta tendência conjuntural, beneficiando assim o peso da dívida no governo e desta forma nas empresas e nas famílias em geral”.

Subida melhora financiamento institucional e rácios de capital

Como os custos de financiamento das empresas e dos bancos estão correlacionados com os custos de financiamento do Estado, a melhoria do rating favorece também as condições de financiamento das empresas portuguesas e da banca, como explicou ao Jornal Económico Miguel Bragança, administrador financeiro do BCP.

“É positivo na medida em que implica uma redução de custos/yields da dívida pública e por isso é bom para a economia no geral e para a banca, em particular, porque contribui para a redução dos custos de financiamento institucionais, por um lado, ou porque melhora os rácios de capital devido à melhoria do valor dos títulos em carteira, por outro”, afirmou.

O que é especialmente relevante numa altura em que a banca se prepara para ir ao mercado para emitir instrumentos de MREL (obrigações bail-ináveis) e em que a CGD vai ter fazer mais uma tranche da obrigações Additional tier 1 e que o Novo Banco irá emitir 400 milhões de euros de Tier2.

Para os bancos o impacto vem ainda por outra via: a carteira de Obrigações do Tesouro detida em carteira. Se a dívida portuguesa estiver na carteira de trading, o banco vende e regista a mais-valia, logo sobe os resultados. Já se estiver na carteira de available for sale, como as menos-valias latentes são deduzidas a capital, a subida dos juros diminui o impacto negativo em capital, sobretudo no regime fully loaded (Basileia III totalmente implementado) .

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