Flexdeal prepara oferta de ações para institucionais

Primeira SIMFE portuguesa está a ultimar os requisitos para a admissão à negociação em bolsa. Veículo de investimento tem participações em 22 PME.

Cristina Bernardo

A primeira sociedade de investimento mobiliário para fomento da economia (SIMFE) portuguesa está prestes a entrar em bolsa. A Flexdeal SIMFE está a ultimar a oferta de ações, que será direcionada a investidores institucionais, segundo apurou o Jornal Económico junto de fontes do mercado. A admissão da empresa à negociação no mercado regulado da Euronext Lisbon tem de ter lugar até ao final do ano e a firma liderada por Alberto Amaral e Ricardo Arroja prepara-se para cumprir o calendário previsto na lei.

Até ao fecho da edição, não foi possível obter esclarecimentos da Flexdeal. Por sua vez, a Euronext Lisbon respondeu que não comenta casos específicos, mas explicou o procedimento a que qualquer SIMFE está obrigada. “O regime das SIMFE determina que estas entidades sejam admitidas à negociação em mercado regulamentado no prazo máximo de um ano após a sua constituição”, afirmou Filipa Franco, head of listing da Euronext Lisbon. No caso da Flexdeal, este prazo de um ano após a sua constituição terminará no dia 4 de janeiro de 2019.

“Para que haja admissão num mercado regulamentado, é necessário que haja um determinado nível de dispersão mínimo, que é de 25% do capital social ou superior a 5% do capital desde que esse capital disperso tenha uma valorização superior a cinco milhões de euros”, explicou. Filipa Franco referiu que a dispersão pode ser alcançada através de uma colocação particular, de uma oferta pública ou um misto dos dois.

“O que distingue a primeira da segunda é que a oferta pública dirige-se a um conjunto indeterminado de investidores, que se considera que assim é se for superior a 150 potenciais investidores. Tipicamente, uma oferta pública tem por alvo o retalho e uma colocação privada investidores institucionais”, disse.

Dada a dimensão da empresa, a Flexdeal deverá dispersar um mínimo de 25% do capital em bolsa e  ser listada no PSI Geral. A entrada em bolsa da Flexdeal irá acontecer depois de este ano terem sido registadas a admissão técnica da Farminveste, do IPO e entrada da fintech Raize – ambas no mercado não regulamentado Euronext Access -, e de a Sonae MC ter falhado uma colocação particular de ações também junto de investidores institucionais.

Flexdeal é a primeira SIMFE portuguesa e quer ser uma alternativa à banca

A empresa é liderada pelo chairman e CEO Alberto Amaral e pelo administrador executivo Ricardo Arroja. Conta ainda com Paulo Nunes Almeida, Paulo Vaz e António Pita Abreu como administradores não executivos. A Flexdeal resulta da conversão de uma outra sociedade anteriormente existente, chamada Método Garantido II S.A., em Flexdeal SIMFE S.A., em agosto de 2017. Na altura, a Flexdeal pediu o estatuto de SIMFE à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), que foi concedida a 4 de janeiro de 2018. Esta foi a primeira empresa a receber esta classificação, que lhe dá também um prazo de um ano para entrar em bolsa.

Sendo uma SIMFE, a Flexdeal tem como propósito a realização de investimentos em pequenas e médias empresas portuguesas, mas também em mid caps e small mid caps, sendo que a legislação obriga a que os instrumentos de capital representem um mínimo de 50% do património da empresa.

“A Flexdeal SIMFE pretende assumir-se como uma alternativa de financiamento para as empresas portuguesas. A economia nacional encontra-se, desde há muito, dependente da oferta bancária como fonte quase única de financiamento, o que em parte contribuiu para o elevado endividamento das empresas do sector não financeiro. No caso das PME, a situação é agravada pela dependência das empresas face a um número reduzido de instituições financeiras”, explica o relatório e contas da empresa, finalizado no mês passado para integrar o prospeto da oferta.

O documento indica que, nos primeiros nove meses de atividade (terminados a 30 de junho de 2018), o total de rendimentos obtidos através dos instrumentos financeiros que detém foi de 1,048 milhões de euros, a que acrescem 433,8 mil euros em rendimentos a realizar.

Por outro lado, o total de gastos foi de 705,9 mil euros, em grande parte (79,7%) associados a gastos com pessoal, mas também fornecimentos e serviços externos (19,8%). Assim, o lucro foi de 48 mil euros, face a um resultado antes de impostos de 78 mil euros.

No final do primeiro semestre, o capital social da empresa situava-se nos 11.053.580 euros, representado por 2.210.716 ações de valor nominal de cinco euros cada. Nessa data, a empresa era detida em 99,48% pela Método Garantido Participações, estando o restante dividido em participações simbólicas de três outros acionistas do núcleo fundador.

Comércio do Norte é o investimento preferido

“A Flexdeal SIMFE prevê consolidar o seu modelo de negócio através do reforço da sua estrutura de capital, na sequência dos resultados positivos obtidos nos primeiros nove meses do exercício”, refere em relação às perspetivas futuras. “O crescimento da base de capital da sociedade permitirá aumentar os investimentos em curso e iniciar novos investimentos, quer na tipologia habitual de participações minoritárias quer, futuramente, também através de participações maioritárias”.

Acrescenta que o crescimento da base de capital permitirá também diluir a estrutura de gastos operacionais da sociedade, “em benefício da rendibilidade final dos accionistas”, acrescenta a empresa que irá distribuir um mínimo de 30% dos lucros aos acionistas.

Até agora, as empresas preferidas da Flexdeal para investir têm sido representantes do comércio no Norte do país. Adquiriu, até ao final do primeiro semestre, participações de capital em 23 sociedades, tendo desistido de uma delas. Ou seja, a Flexdeal detinha participações de capital em 22 sociedades, em todas posições minoritárias de capital (ações ou quotas).

O investimento global ascendeu a 10,2 mil milhões de euros. Em média, cada participada recebeu 465 mil euros, sendo que o investimento menor foi de 5 mil euros e o mais elevado de 1,6 milhões de euros. Do total, 73,6% do total de investimento era dedicado as sociedades com atividades de comércio (prestação de serviços, vestuário e calçado), enquanto a indústria (têxtil e calçado) representava 26,4%.

“Do ponto de vista geográfico, existe uma forte concentração dos investimentos na região Norte de Portugal”, refere o relatório, acrescentando que a Flexdeal “não tem preferências sectoriais” e que “investe com base na avaliação que faz de todos os ativos das empresas participadas, incluindo a competência da gestão e a visão estratégica dos detentores de capital”.

(artigo publicado na edição impressa do Jornal Económico, nº1960, de 26 de outubro de 2018)

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