“Fraca proatividade” inibe sucesso das reestruturações

Empresários e governo devem ser menos reativos e mais proativos e antecipar cenários críticos para os negócios, diz Pedro Neto.

Os empresários portugueses devem ser menos reativos às condições do mercado e mais proativos de forma a antecipar fragilidades e agilizar eventuais processos de reestruturação. Se não o fizerem, esses processos podem ser “dolorosos”. Os avisos partem do partner da consultora Moneris, Pedro Neto, e do jornalista e diretor-geral da Megafin, Vitor Norinha, que salientam ainda que há que mudar a mentalidade relativamente à conotação negativa das reestruturações. O próprio governo não é isento de culpa já que esta é “uma questão cultural”, consideram os convidados da mais recente JE Talks.

A reestruturação de empresas “é algo nuclear para a manutenção saudável de todo o nosso tecido que produz e gera emprego”, diz Vitor Norinha, mas ainda persiste uma ideia negativa em torno da mesma. “Pensamos em reestruturação sempre como algo que acontece a uma empresa que está em incumprimento, que entrou num processo de revitalização”, explica, mas isto “não é verdade”, sublinha. De facto, como elabora, existem vários tipos de reestruturação, mais ou menos invasivas, mas o que realmente importa é a abordagem a essa necessidade de reestruturar. Pelos vistos, há que repensar antes de reestruturar. E isso começa com a atitude dos empresários e do próprio governo.

As empresas não tinham como adivinhar que iriam ultrapassar dois anos de pandemia, ou a guerra que se lhe seguiu, admite Norinha, mas no momento atual é possível antecipar fragilidades e cenários críticos – e se é possível vê-los, ainda que ao longe, há que preparar as organizações para essas possibilidades, algumas delas já tangíveis, como a inflação. Outras, como uma possível recessão, ou uma crise energética e alimentar, já deviam constar dos planos de contigência das empresas, apela o partner da Moneris. “Na maior parte dos casos e, infelizmente, ainda é a prática, estes processos de reestruturação ainda são muito numa perspetiva reativa e não proativa”, diz. Ou seja, os mesmos só se iniciam “quando existe já algum incumprimento” e aí pode ser já tarde, adianta. “As empresas terão que olhar para estes processos de reestruturação de uma forma proativa”, considera. Isso implica que os gestores estejam atentos “aos sinais que os mercados nos dão e começar a trabalhar nestes processos de uma forma antecipada” para que não entrem num processo de incumprimento, altura em que “poderá ser mais doloroso aplicar algumas medidas”, refere.

Quanto à mentalidade – a dos empresários e dos governantes – há olhar para os dois lados da moeda. Por um lado, não deixar “ir até ao fim” antes de se reagir, como explica Norinha e, por outro, deixar de encarar a reestruturação como um processo negativo, ou um mero passo no caminho da insolvência. Não tem que ser assim, explica. “Temos que abandonar a ideia de que a reestruturação é apenas negociação de dívida ou venda de ativos. Pode ser a redefinição de toda a cultura empresarial”, adianta ainda. Essa redefinição pode passar pelo pricing, pela estrutura ou pelo próprio modelo de negócio que pode já estar desfasado da realidade, acrescenta Pedro Neto. As empresas devem olhar para os indicadores do mercado para perceber se basta arejar a casa, ou se é preciso uma limpeza a fundo. Do governo, contudo, esperava-se mais preparação.

“A fraca proatividade que existe é uma questão cultural das empresas e também dos governos, infelizmente”, diz Pedro Neto. “Podíamos ter aproveitado para reformular o Orçamento do Estado e torná-lo mais apelativo, mais atrativo para aproveitar” aquilo que considera uma “oportunidade macroeconómica e geopolítica”. Tal não aconteceu. “O Estado tem de ser mais proativo porque esta pode ser a oportunidade que Portugal tem para se poder alavancar”, conclui o responsável.

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