França: Macron enfrenta hoje o poder das ruas

Desta vez não são os ‘coletes amarelos’ mas os sindicatos que lutam desde a primeira hora contra as reformas que Macron quer introduzir nas áreas sociais. A força das ruas será inversamente proporcional à força do Presidente.

Cristina Bernardo

As ruas têm sido para o Presidente francês Emmanuel Macron um dos seus principais problemas internos – e não são apenas os ‘coletes amarelos’ – e o dia de hoje é de regresso da contestação às principais artérias de Paris, desta vez (como quase sempre) por causa das reformas nas áreas sociais.

Para os analistas, mais esta prova de fogo pode ser, se correr mal para Macron, o início do fim de uma legislatura que parecia ter tudo para correr bem. Desde o início que Macron – que foi anteriormente um muito contestado ministro da Economia de François Hollande – sabia que teria de enfrentar reformas que considerava fundamentais e que isso iria encher as ruas de contestação.

Mas prometeu não vacilar: era a sua marca registada, recorda a imprensa gaulesa. Durante a campanha presidencial, o candidato Macron apresentou-se como aquele que lideraria uma profunda transformação do país. “A verdadeira divisão hoje é entre os conservadores (…) e os reformadores progressistas” , escreveu ele no seu livro ‘Revolution’, publicado no final de 2016.

Três anos depois, refere o jornal ‘Le Monde’, essa postura ousada de quem não recua diante do obstáculo continua a ser a principal força do chefe de Estado. O sentimento de que Macron se atreve a fazer reformas impopulares, mas necessárias é o principal motivo apresentado por 39% dos seus apoiantes, segundo uma sondagem divulgada no início da semana.

Macron ‘cavalgou’ essa imagem, que surgiu como contra-ponto da inação que marcou, para os franceses, os anos da presidência de Hollande. Nesse quadro, a mobilização social que Macron enfrenta hoje – e que, segundo a imprensa, corre o risco de paralisar o país – vai dar sinais esclarecedores sobre a sua capacidade de enfrentar os adversário e, apesar disso, fazer as reformas que o Palácio do Eliseu entende serem necessárias.

“O sistema de reformas é o grande teste”, dizem os jornais – que citam numerosos responsáveis do partido de Macron: “a idade da reforma [e os subsídios que lhe estão subjacentes] é o grande teste à nossa capacidade de reformar” a economia, diz o porta-voz do República em Movimento, Aurore Bergé, citado pelo ‘Le Monde’.

No partido, a tendência manifesta é para se considerar um cenário negro semelhante ao de 1995 (quando o então primeiro-ministro Alain Juppé foi forçado a recuar na sua reforma dos regimes especiais sob a pressão da rua) a evitar a todo o custo. Mas uma coisa é uma vontade (e promessa) eleitoral e outra muitas vezes bem diferente é a gestão dos equilíbrios políticos em cada momento.

O dia de hoje será crucial para Macron – tanto como a oposição e os sindicatos – aferir sobre o caminho que vem a seguir.

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