De pé, ó vítimas da República!

Quem acha que vamos ter um governo de esquerda, desengane-se. O que existe são três papéis assinados, numa sala fechada, longe de olhares públicos. A isso, chama-se “acordo”. De acordo, há acordo, até posso concordar. Agora, será que vai ser suficiente para convencer o atual ocupante da cadeira de Belém que aquilo vale um Governo […]

Quem acha que vamos ter um governo de esquerda, desengane-se. O que existe são três papéis assinados, numa sala fechada, longe de olhares públicos.

A isso, chama-se “acordo”. De acordo, há acordo, até posso concordar. Agora, será que vai ser suficiente para convencer o atual ocupante da cadeira de Belém que aquilo vale um Governo de Portugal para quatro anos?

Aí é que a porca da política vai torcer o seu já mais do que retorcido rabo. E há ainda outro fator que é importante ter em consideração: o mais ilustre cidadão de Boliqueime a seguir ao senhor Teodoro está de saída – quem é o senhor Teodoro? É o pai de Cavaco. E é importante porquê? Porque foi o senhor Teodoro quem pôs Cavaco de castigo no Verão de 1953 por este ter reprovado na escola, traumatizando o filho para a vida, o que explica que ele seja como é.

Cavaco é um homem que acredita no valor do trabalho, do esforço, do mérito. Ele não é má pessoa, mas aquilo tem ali muito de trauma freudiano. A sério. Vão ler a autobiografia e confirmem isso. Uma das passagens da sua obra, por exemplo, relata uma ida à Roménia de Ceaucescu. A experiência marcou-o.

Cavaco Silva sabe que um governo de esquerda é algo assaz desagradável, porque já experimentou e não gostou. Por outro lado, em contraponto, acredito que existe também quem não queira um Governo do PS/BE/PCP por receio de vir a gostar de o experimentar e ter de rever as convicções que até aí guiaram a sua vida.

Durante a vida, diz-se, uma pessoa muda de mulher, muda de partido, muda de cidade, muda de país, muda de emprego, mas não muda de clube de futebol. O que não é totalmente verdade. Eu, por exemplo, conheço uma pessoa que já mudou de clube de futebol. Chama-se Augusto, para que não pensem que estou a inventar. Por isso, acredito que não há padrões comportamentais que possam permitir prever que, de repente, uma pessoa não surpreenda e não faça algo que vai contra tudo o que se esperaria dela. Sendo assim, o que esperar de Cavaco?

Será que, para ele, é claro e clarinho que há um acordo válido, viável, entre Costa, Martins e Sousa?

Vai Cavaco deixar-nos em “herança” republicana um governo do PS com apoio da esquerda?

Ou optará por um governo de gestão para que o próximo presidente da República, que deverá tomar posse em março, possa ter a liberdade de decidir num horizonte de cinco anos?

Eu sei o que Cavaco quer: não quer dar posse a Costa. Ainda desmaiaria no ato, como quando se deu a tomada de posse de Guterres, após as eleições de 1995. Mas, pode surpreender. Sei que vai levar até ao limite dos seus poderes a decisão.

E tomará aquela que acalmar os mercados. Ele, como economista, foi sempre um político profissional. E os mercados é que mandam. Por isso, se Costa vier a ser nomeado primeiro-ministro por Cavaco Silva, podemos ter a certeza de uma coisa: não vai ser um Governo de esquerda.

Frederico Duarte Carvalho,
Jornalista e escritor

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